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Guerra—Proclamação de Napoleão Francezes—Ha na vida dos povos momentos solemnes em que a honra nacional violentamente excitada, se impõe qual força irresistível, domina os interesses e toma a direcção dos destinos da patria. Acaba de soar para a França uma dessas horas decisivas. A Prússia, á qual testemunhamos emquanto durou a guerra do 1866 e depois della, as disposições mais conciliadoras, náo levou em conta a nossa boa vontade sem a nossa longanimidade. Participou-se no caminho das invasões, dispertando com isto desconfianças, fazendo necessários em toda a parte armamentos exagerados, e transformando a Europa em campo onde reinam a incerteza e os receios pelo dia de amanhã. Veio revelar a instabilidade das relações internacionaes um incidente recente e mostrar toda a gravidade da situação. Em presença das novas pretenções da Prússia, fizemos ouvir as nossas reclamações. Foram porém illudidas e seguidas de certo procedimento desdenhoso. Irritou-se profundamente o paiz, e de uma extremidade a outra da França resoou um grito de guerra. Só nos resta confiar á sorte das armas os nossos destinos. A guerra não é á Allemanha, cuja independencia respeitamos. Fazemos votos por que os povos que compõe a grande nacionalidade germanica disponham livremente de seus destinos. Pela nossa parte, reclamamos o estabelecimento de um estado de cousas que garanta a nossa segurança e assegure o nosso futuro. Queremos conquistar paz duradoura, fundamentada nos verdadeiros interesses dos povos, e fazer cessar este estado precario em que todas as nações empregam os seus recursos para se armar umas contra as outras. É ainda a mesma que levou através da Europa as idéas civilisadoras da nossa grande revolução, a gloriosa bandeira que desfraldamos hoje perante aquelles que nos provocam. Representa os mesmos princípios; ha de inspirar as mesmas dedicações. Francezes—Vou pôr-me á testa do nosso valente exercito que é animado pelo amor do dever e da patria. Elle bem sabe o que vale, porque viu nas quatro partes do mundo a victoria sempre atraz dos seus passos. Levo meu filho comigo, não obstante ser tão moço ainda. Elle sabe quaes são os deveres que lhe impõe o seu nome, e tem orgulho em tornar parte também nos perigos daquelles que combatem pela patria. Que Deus abençoe os nossos esforços! Os grandes povos quando defendem causas justas são invencíveis. Napoleão. Paris, 21 de julho de 1870. Sr.,...—Conhece de certo o encadeamento dos factos que nos levaram a um rompimento com a Prússia. A communicação que o governo do imperador levou á tribuna dos corpos do estado e de que eu já enviei uma copia, expoz á França e á Europa as rapidas peripécias de uma negociação em que, á medida que duplicavamos os esforços para conservar a paz, se descobriam os secretos desígnios de um adversário resolvido a tornal-a impossível. Ou porque o gabinete de Berlim julgasse que a guerra era necessária para a realisação dos projectos que ella preparava havia muito tempo contra a autonomia dos estados allemães, ou porque, pouco satisfeito de ter estabelecido no centro da Europa um poder militar que se tornou temível para todos os visinhos, quizesse desenvolver a força adquirida para deslocar definitivamente em proprio proveito o equilibrio internacional, a intenção premeditada de recusar-nos as garantias indispensáveis á nossa segurança como á nossa honra, mostra-se em toda a evidencia no seu procedimento. Eis qual foi, sem duvida, o plano combinado contra nós. Um accordo preparado mysteriosamente por intermediários não conhecidos devia, se a luz não brilhasse a tempo, levar as cousas até ponto em que a candidatura de um prussiano á corôa de Hespanha fosse subitamente revelada ás côrtes reunidas. Um voto alcançado por surpreza, antes que o povo hespanhol tivesse tempo de reflectir, proclamaria, quando menos se esperasse, o principe Leopoldo de Hohenzollern herdeiro do sceptro de Carlos V. Assim, a Europa achava-se em presença de um facto consumado; e, especulando com a nossa deferencia para o grande principio da soberania popular, contiva-se que a França, apesar de um desgosto passageiro, suspenderia qualquer acção ante a vontade ostensivamente expressada de uma nação que ha sabido merecer as nossas sympathias. Desde que conheceu o perigo, o governo do imperador não hesitou em denuncial-o aos representantes do paiz como a todos os gabinetes estrangeiros: contra este manejo a opinião publica tornava-se o seu mais legitimo auxiliar. Os espíritos imparciaes não se illudiram ácerca da verdadeira situação das cousas; comprehendeu-se para logo que se estando profundamente desgostosos de ver que a Hespanha traçava, no interesse exclusivo de uma dynastia ambiciosa, um papel tão pouco feito para a lealdade d’este povo cavalheiroso, tão pouco em harmonia com os instinctos e as tradições de amisade que o ligam a nós, não podíamos ter o pensamento de desmentir o nosso constante respeito para a independencia das suas resoluções nacionaes. Avaliou-se que só a política pouco escrupulosa do governo prussiano entrava em acção. Era este governo, com effeito, que, não se julgando ligado pelo direito commum e desprezando as regras ás quaes as maiores potências tem tido a prudencia de submetterem-se, tentou impôr á Europa illudida uma preponderância tão perigosa da sua influencia. A França tomou a si a causa do equilibrio, isto é, a causa de todos os povos ameaçados como ella pelo engrandecimento desproporcionado de uma casa real; e procedendo assim, collocar-se-hia ella, como tem querido faze-lo acreditar, em contradição com as suas próprias maximas? Seguramente, não. Qualquer nação, desejamos proclamal-o, é senhora dos seus destinos. Este principio, altamente affirmado pela França, tornou-se uma das leis fundamentaes da política moderna. Mas o direito de cada povo, como de todo indivíduo, é limitado pelo direito de outrem, e é prohibido a uma nação, sob pretexto de exercer a sua própria soberania, ameaçar a existencia ou a segurança de um povo visinho. Foi n’este sentido que um dos nossos grandes oradores, o sr. Lamartine, dizia em 1847 que, quando se tratava da escolha de um soberano, qualquer governo não tinha nunca o direito de pretender e tinha sempre o direito de excluir. Tal doutrina foi aceita por todos os gabinetes em circumstancias analogas áquellas em que nos collocou a candidatura do principe de Hohenzollern, principalmente em 1831 na questão belga, e 1830 e em 1862 na questão hellenica. Nos negocios belgas, foi a voz da Europa que se ouviu, porque foram as cinco grandes potências que os decidiram. As tres côrtes, que tomaram a peito a causa do povo hellenico inspirando-se de um pensamento de interesse geral, tinham já combinado previamente não aceitar o throno da Grécia para um principe da sua família. Os gabinetes de Paris, Londres, Viena, Berlim e S. Petersburgo, representados na conferencia de Londres, seguiram este exemplo; assentaram que seria essa a regra de proceder para todos em uma negociação em que estava empenhada a paz do mundo e prestaram assim uma solemne homenagem á grande lei da ponderação das forças, que é a base do systema político europeu. Debalde o congresso nacional da Belgica persistiu, não obstante esta resolução, em eleger o duque de Nemours. A França sujeitou-se á obrigação que tinha contrahida e recusou a corôa que os deputados belgas trouxeram a Paris; mas preservou-se a necessidade de fazer também, excluindo a candidatura do duque de Leuchtenberg, o que se oppozesse a d’um principe francez. Na Grécia, quando se deu a ultima vacatura do throno, o governo do imperador combatia ao mesmo tempo a candidatura do principe Alfredo de Inglaterra e a de outro duque de Leuchtenberg. A Inglaterra, reconhecendo a authoridade das considerações invocadas por nós, declarou em Athenas que a rainha não authorisava seu filho a aceitar a corôa da Grecia. A Rússia fez uma declaração semelhante pelo duque de Leuchtenberg, posto que em razão do seu nascimento, este principe não devesse ser absolutamente considerado por ella como membro da família imperial. Emfim, o imperador Napoleão applicou espontaneamente os mesmos princípios em uma nota inserta no «Moniteur» de 1 de setembro de 1860, para rejeitar a candidatura de principe Murat ao throno de Napoles. A Prússia, a quem não deixámos de recordar taes antecedentes, pareceu por um momento que cedia ás nossas justas reclamações. O principe Leopoldo desistira da sua candidatura; e todos podiam alegrar-se porque a paz não seria perturbada. Mas esta esperança deu em breve logar a novas apprehensões, porque havia a certeza de que a Prússia, em retirar seriamente nenhuma das suas pretenções, procurava sómente ganhar tempo. A linguagem a principio vacillante, depois decidida e altiva do chefe da casa de Hohenzollern, sua recusa em empenhar-se para manter no dia seguinte a renuncia da vespera, o procedimento havido para com o nosso embaixador, ao qual uma mensagem verbal interdisse toda a communicação nova para o objecto da sua missão de conciliação, emfim a publicidade dada a este procedimento insolito pelos jornaes prussianos e pela notificação que se fez ao gabinete; todos estes symptomas successivos de intenções aggressivas fizeram cessar a duvida nos espíritos mais precavidos. Seria permittida a illusão quando um soberano, que commanda um milhão de soldados, declara, com a mão no copo da espada que se retira para se aconselhar comsigo proprio e conforme as circumstancias? Chegáramos ao limite extremo em que uma nação que sente o que deve a si não transige com as exigências da sua honra. Se os ultimos incidentes d’esta penosa discussão não lançavam viva luz sobre os projectos alimentados pelo gabinete de Berlim, ha uma circumstancia, menos conhecida até hoje, que dá ao seu proceder uma significação decisiva. A idéa de elevar ao throno de Hespanha um principe de Hohenzollern não era nova. Já no mez de março de 1869 fôra indicada por elle no nosso embaixador em Berlim, que fôra logo convidado para communicar ao conde de Bismark como o governo do imperador consideraria semelhante neutralidade. O sr. conde de Benedetti, em diversas conversações, que tivera acérca d’este assumpto, assim com o chanceller da confederação da Allemanha do Norte, como com o subsecretario de estado, encarregado da direcção dos negocios estrangeiros, não deixou elle ignorar que não poderiamos approvar que um principe prussiano viesse reinar alem dos Pyreneus. O conde de Bismark, por seu lado, declaràra que não devíamos por modo algum preocupar-nos com uma combinação que elle proprio julgava irrealisavel; e na ausencia do chanceller federal, em um momento em que o sr. Benedetti julgou dever mostrar-se incredulo e illucido, o sr. Thiele empenhou a sua palavra de honra de que o principe de Hohenzollern não era nem podia ser um candidato serio para a corôa de Hespanha. Se se devesse suspeitar da sinceridade de affirmativas officiaes tão positivas, as communicações diplomáticas deixariam de ser um penhor da paz europea: seriam apenas uma cilada ou um perigo. Assim que o nosso embaixador transmitio estas declarações sob todas as reservas, o governo do imperador julgou conveniente recebêl-as favoravelmente. Recusira-se a duvidar da boa fé com que se haviam feito, até o dia em que se revelou subitamente a combinação que era a u’a mais flagrante negação. Reconsiderando inopinadamente a palavra que nos dera, sem mesmo tentar nenhuma negociação para se empenhar para comnosco, a Prússia nos endereça um verdadeiro desafio. Sabendo, desde então, o valor que podiam ter os mais formaes protestos dos homens de estado prussianos, tínhamos o imperioso dever de preservar, no futuro, a nossa lealdade contra novos enganos por meio de um penhor explicito. Devíamos portanto insistir, como o fizemos, para obter a certeza de uma renuncia que se se apresentasse apenas cercada de distincções subtis era, d’esta vez, definitiva e séria. É justo que a corte de Berlim tinha perante a historia a responsabilidade d’esta guerra, que tinha os meios de evitar e que ella quiz. E em que circunstancias foi procurar a lucta? Foi quando, ao cabo de quatro annos, a França lhe estava dando o testemunho de constante moderação e se abstinha, por um escrupulo, em um momento tão delicado, e portanto sobresaé em todos os actos dum governo que já pensava em transgredil-os no momento em que os assignava. A Europa foi testemunha do nosso procedimento e póde comparal-o com o da Prússia durante o curso d’este periodo. Que ella se pronuncie hoje sobre a justiça da nossa causa. Qualquer que deva ser a sorte dos trabalhos, aguardamos sem inquietação o juízo dos nossos contemporâneos como o da posteridade. Aceite, etc. (Assignado) Gramont.