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Odemira · Portugal

Dizem-nos desta localidade o seguinte: Inaugurou-se no dia 5 a eschola do conde de Ferreira; não se póde cançar a sua paciencia, e a dos seus leitores com a prolixa descripção da festa em que se tornou celebre para a abertura da eschola; dir-lhe-hei hoje, muito em resumo, que se póde nadar a alma do instituidor com uma missa na capella de S. Sebastião á qual assistiu, grande numero de senhoras, e dos principaes cavalheiros desta villa, se dirigiram para o edificio da eschola, onde tomado o logar da presidencia pelo presidente da camara o illm.° sr. Marreiros por elle foi declarado qual o fim d’aquella reunião, entregando em seguida a chave da eschola ao sr. Mattos Reis professor de instrucção primaria desta villa, que tambem ali se achava, com quasi todos os seus discipulos. O sr. Reis depois de haver recebido a chave pediu a palavra e recitou um bem coordenado artigo do qual mostrou as vantagens que nos pode trazer a instrucção, nomeando alguns illustres portuguezes, que deixaram, pelo seu saber e instrucção memória duradoura e notável. Seguiu-se-lhe o sr. Silva Ribeiro que por meia hora, teve os circumstantes enlevados e arrebatados, que os escutaram com religioso silencio, galardoando-lhe o seu bello e eloquente discurso com muitos e bem merecidos bravos e applausos. O sr. Ribeiro foi feliz no thema que escolheu para a sua oração: mostrou os constantes contrastes que sempre se estão observando no mundo: mostrou com claresa o quanto fomos grandes, nos seculos passados nas armas e nas conquistas, que hoje nada somos mas que ainda podemos surgir do abysmo em que nos precipitou um fatal destino e que só poderíamos chegar á gloria pela instrucção e pelo saber. Fez um quadro carregado mas verdadeiro, do quanto absorve o monstro da guerra e quanto lucraria a humanidade com a milesima parte applicada á instrucção do povo! Foi um notável discurso, não só pela pureza da dicção, e limado da frase como pela muita erudição que nelle se deixou ver. Findo o eloquente discurso do sr. Silva Ribeiro, a sr.ª D. Leonor Augusta Lopes Falcão acompanhou ao piano um lindo hymno cantado por dois alumnos da eschola. Seguiu-se a assignatura da acta por todas as authoridades e pessoas presentes, tocando n’este tempo a philharmonica e escolhidas peças de musica. A’ noite houve saráo a que concorreram quasi todas as senhoras da villa e grande numero de convidados sendo o serviço abundante, escolhido, podendo até dizer-se magnifico. O edificio da eschola achava-se adornado tanto interior como exteriormente, com toda a decencia e riqueza e embellecido com os retratos de alguns portuguezes illustres e distinctos, quer nas armas quer nas letras o que se deve á iniciativa e decidido empenho do sr. Mattos Reis, que se dirigiu a muitos personagens distinctos, e nobres, pedindo-lhe os seus retratos, e os de pessoas já fallecidas, o que foi uma feliz e luminosa idea do sr. Mattos; faltou ali um retrato que não é, nem foi possivel obter, o do sr. José Carlos Monteiro professor que foi d’esta villa por quem a mocidade odemirense conserva a mais viva como ardente saudade. Aos illm.°s srs. dr. Penha, Lopes Falcão, Silva Ribeiro, e Pintado Nobre cabem muitos elogios pela maneira como souberam tão cabalmente levar a cabo a missão de que estavam incumbidos pois que foram regados pelo digno presidente da camara para fazerem uma commissão que se encarregou dos trabalhos da festa, e que tão honrosamente souberam cumprir. Mil louvores tambem ás nobres damas que auxiliaram aquelles cavalheiros, tomando a sua conta todo o serviço do saráo que tão profusamente foi servido. São aquellas damas as exm.ªs senhoras: D. Marianna Lucia, D. Marianna Victoria, D. Joaquina Perpetua Falcão, D. Maria Ribeiro, D. Leonor Lopes Falcão, e D. Anna Salema. * * *