Viagem de Napoleão
Lê-se o seguinte na Epoca de Madrid: Feitos de antemão todos os preparativos, na manhã de 19, Napoleão, vestido á paisana, emprehendeu a sua viagem em uma carruagem puxada por quatro cavallos, enviada para aquelle fim pela imperatriz da Allemanha e que o conduziu á estação do caminho de ferro que por Colonia vai para a Belgica. Antes da sua partida, o dr. [ilegível] Cassel celebrou a missa no palacio, e o general conde [ilegível], governador, com os demais chefes e rabinos apresentaram-lhe as suas homenagens de despedida. Uma companhia allemã no palacio e outra na estação fizeram-lhe as honras reaes pela ultima vez. O imperador não levava d’alli séquito alem dos seus ajudantes, o príncipe de Mosccwa, Ney e o general Castellau. O marechal Bazaine despediu-se do imperador na vespera. Mac Mahon marchou uma semana antes para Paris e Canrobert para Versalhes, mas um e outro retrocederam. Nunca se viu Napoleão tão commovido como ao deixar esta residência em que teve que passar dias e noites tão amargas. O seu transito pela Belgica foi quasi incógnito e de noite, querendo evitar qualquer demonstração em qualquer sentido do governo belga. Só no amanhecer em Ostende havia alguns políticos que com respeito saudaram o desterrado viajante. O rei Leopoldo havia posto á sua disposição o navio regio e n’elle fez a travessia até Dover. Aqui, sendo as tres da tarde a hora da sua chegada, o povo era immenso. Em Dover o imperador é muito estimado, pois a sua grande prosperidade vem do tratado de commercio entre a França e a Inglaterra n’elle devido, e da boa amisade que durante o império reinou entre as duas nações. O facto é que um poviléu immenso quando viu o vapor saudou Napoleão com acclamações e no pôr elle o pé em terra foram estrepitosas. Por fim a imperatriz, chorando commovida, pôde lançar-se nos braços do seu esposo, emquanto o príncipe imperial, todo agitado pela emoção, também conduzia amorosamente seu pae. A imperatriz beijou-o com effusão. O corregedor de Dover, em um discurso, lembrou-lhe que ha quinze annos o havia recebido como soberano alliado e hospede illustre da rainha de Inglaterra, e que hoje a sua cordialidade seria ainda maior ante a desgraça. O povo não quiz separar-se da familia imperial, enchendo-a de ruidosas manifestações de affecto e foi preciso que o imperador se retirasse por uma porta secreta do hotel onde se apeou para ir á estação do caminho de ferro que leva a Camden-house. Alli recebeu as visitas do príncipe de Galles, do conde de Flautins e de outros principes inglezes e estrangeiros que ora se acham em Londres. Os duques de Mouchy estão com a imperatriz, e grande numero de personagens francezes foram a Chislehurst.