Explosão na fabrica de cartuchos
Dos periódicos estrangeiros transcrevemos os horriveis pormenores que contém ácerca de uma explosão havida em Paris na fabrica de cartuchos. Estava esta situada nos Campos Elyseos, no angulo formado pelas avenidas Rapp e Labour-Fontiais. Componha-se de dois edificios: um o deposito dos projectis carregados; outro a officina onde costumavam estar occupadas mais de 800 operarias. A explosão partio do deposito onde só se encontravam as pessoas encarregadas de transportar os pacotes de projectis á medida que eram preparados. Por um providencial acaso, as operarias tinham sahido todas na occasião em que succedeu o sinistro. Paris inteiro se abalou com uma detonação tão espantosa, que fez tremer as casas a grande distancia do lugar onde se produziu. Uma immensa nuvem de fumo, negra e salpicada de clarões e fogos fulvos se elevou no céo. Meia hora depois da primeira detonação declarou-se um incendio immenso, cujas chamas se elevaram a vinte metros de altura por cima dos telhados, lançando para o céo muitos pacotes de cartuchos que rebentavam no ar e deixavam cair os projectis como chuva de chumbo derretido cobrindo uma grande extensão de terreno. O panico causado pelo sinistro é indescriptivel. Ao sentir o espantoso abalo, ao ver que muitas casas se derrocavam de chofre, e que n'outras as paredes se grelavam e saltavam os telhados, todos os habitantes do bairro, sem saber o que faziam, loucos de terror, arrojaram alguns moveis pelas janellas e salvaram para as ruas precipitando-se no perigo por fugir d'elle. Entretanto as bombas saltavam em todas as direcções, ferindo ou matando muita gente. Algumas penetraram na escola militar; outras cahiram no hospital, onde determinaram uma fugida geral, sahindo enfermos e enfermeiros, no estado em que estavam, nus ou meio vestidos. Os cavallos fugiram das cavallariças, galopando e encabritando-se furiosos. Os avisos eram inúteis; ninguem escutava os conselhos. O medo, o horror, a loucura eram geraes. Todavia não tardou em verificar-se mudança quasi repentina na attitude da população ao ver a conducção de feridos que reclamavam os mais urgentes cuidados, ao comprehender a necessidade de atalhar o incendio para evitar maiores catastrofes, pois ao lado estavam intactos uns armazens que continham milhões de cartuchos. A primeira cura dos feridos effectuou-se em pleno campo de Marte, applicando ligaduras e apressando-se toda a gente em offerecer generoso asylo áquelles infelizes. Homens e mulheres levavam as macas ou transportavam medicamentos, emquanto que outros faziam cadeia para levar agua ao incendio. Aquelle espectaculo de geral abnegação era consolador; mas os instantes em tão penosa tarefa e no meio de tão terriveis occorrencias pareciam seculos. O numero de victimas encontradas logo no principio é muito consideravel; da primeira explosão deviam de perecer, além das pessoas que estavam no deposito, os soldados de guarda, que eram uma companhia; além d'isso, em toda a area que alcançaram os projectis ficaram vestigios de sangue e destruição. Mas o mais horrivel era o estado dos cadaveres e dos feridos. Aquelles estavam na sua maior parte carbonisados: os cabellos, a pelle, os olhos tinham desapparecido, ficando só um tronco informe e repugnante. Uma mulher fora cortada por metade do corpo. Quanto á causa do sinistro, no principio correu a nota de que fora intencionado, de que os versaillenses tinham posto fogo; mas como todas as razões eram contra, a população acabou por se convencer de que não houve criminosos, uma vez que nem mesmo as bombas dos sitiadores caiam por aquelle ponto.