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Lisboa · Loulé · Porto · Serpa · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta

Lisboa 23 de novembro (do nosso correspondente)—Novidades políticas absolutamente não ha nada. O governo continua a guardar o mais inviolável segredo sobre as suas medidas no que me parece que faz bem; a seu tempo se conhecerão, e o paiz e a imprensa terão então occasião de as apreciar e discutir. Os jornaes de 10 reis, especies de trapeiros de nova especie, andam desesperados com este procedimento do governo, pois que estão costumados a mercadejar nas secretarias d’estado, para obter o conhecimento do que não podia nem devia transpirar se os empregados cumprissem os seus deveres. Este escandalo vae-se tornando monumental, pois que não são só os pequenos empregados que tomam parte n’elle, havendo chefes de repartição que se diz que recebem estipêndios das redacções d’esses jornaes a fim de obterem noticias do que ha, e muitas vezes do que não ha. O incolor que se quer jactar de ser o alviçareiro mór da imprensa, é quem mais gasta n’esta mercancia, e quando lhe falta o fornecimento desejado, inventa o seu maranhar a fim de levantar no publico alguma apprehensão, que obrigue este á compra da folha. Este procedimento não é serio nem digno, e uma folha que se quer acreditar não recorre a taes meios. Ha pouco tempo inventou no escriptorio a noticia da confirmação do casamento de D. Fernando, sem que houvesse base nenhuma para tal noticia, mas o fim era levantar a opinião publica e chamar a maior venda, porque todos desejavam saber se effectivamente o jornal traria a noticia; no dia seguinte desmentiu elle proprio o que tinha dito, mas o fim estava preenchido, que era o consumo, muito embora para esse fim se desconceituasse alguém, e se lançasse um certo desfavor sobre o governo. Hontem perguntava elle com uma certa ingenuidade velhaca se as cortes seriam dissolvidas; ora o redactor bem sabe que o governo não pensa em similhante cousa, porque nem mesmo é a occasião própria, e tracta mais de ver se pode viver com a camara antes do que entrar n’uma lucta eleitoral, mas o fim é dar noticias extraordinarias, e muito embora falsas, ajudando ao mesmo tempo a indispor o governo, dizendo comtudo sempre que não é político; é uma tactica nojenta, que pode dar mais alguns vinténs, mas que está abaixo da seriedade de um jornalista que de mais a mais quer passar para o publico como imparcial. Continua o jornal historico a fazer a mais decidida guerra ao governo, agarrando-se a miserias que não era do esperar de uma folha seria. Consta que uma grande parte d’este partido, que se ignora se existe inteiro, não approva a maneira como tem procedido a Gazeta do Povo, entrando n’este numero o seu digno chefe o nobre duque de Loulé. Não é de admirar que isto assim aconteça e em janeiro se verá em S. Bento. Nós inclinamo-nos a crer que o nobre duque de Loulé, que é um caracter respeitável, digno e sobretudo honesto, se não pode associar a compartilhar da linguagem baixa e dos meios indecorozos com que a Gazeta agride o governo; todos sabem que na redacção d’esse jornal estão os insoffridos por serem ministros, julgando-se muito aptos para tal cargo, convencidos de que só elles são capazes de salvar a patria; se a patria são elles, tambem nós somos da mesma opinião. Esta especie de triumvirato, que nas vesperas das crises ministeriaes está a estudar e a combinar a maneira como hade proceder a ver se pode entrar na futura organização, é de um gosto maravilhoso; elles não tem ideias nenhumas de administração, nem tem dado provas d’isso, mas apresentam-se como ninguém. Na verdade é zanga, fazer conta com a pasta e fugir-lhe é para ficar com uma cara mais esquisita ainda do que a da propria pessoa, que tem a infelicidade de todos antipatizar com ella. A natureza que é sempre previdente constituiu a cousa de tal maneira, que quem olhasse conhecesse logo por um certo instincto que a ambição mais desenfreada se abrigava n’aquelle invólucro andante, e por isso com a ajuda da maneira como Lavater descreve os diversos typos, não resta duvida alguma a quem fita bem os olhares que a arrogancia, a soberba e a vaidade tem abrigo n’aquella pequena estatura. Se a desgraça publica chegar a ponto de alguma vez os vaivéns da politica ou os compromissos partidarios o levarem a ministro, então se experimentará o que d’elle ha a esperar. Realisou-se a eleição municipal n’esta cidade saindo eleita em parte a actual vereação e alguns outros nomes que andavam em diversas listas. O governo não interveio de maneira alguma na eleição, mantendo a mais completa liberdade na urna; no entanto a Gazeta do Povo diz que o governo foi derrotado! Miserias são estas que nem merecem resposta; estão mortos os partidos que empregam estas armas desleaes, não se lembrando que já estão muito conhecidos. Tem-se levantado ultimamente na imprensa uma questão que o Diário Popular, a luminaria reformista, tem pretendido explorar a respeito do que se passou entre a rainha e a duqueza de Palmella. A Correspondência de Portugal, a proposito de uma noticia do correspondente do Commercio do Porto publicou um artigo indecoroso, que deu logar á saida d’aquella redacção do sr. Antonio de Serpa. O publico não conhece a fundo o que realmente se passou entre estes personagens, mas a julgar pelo que se diz, não resta duvida que a duqueza de Palmella, não comparecendo no paço ás recepções dos anniversarios da rainha e do rei, faltou não só a um dever de delicadeza e consideração, como ao cumprimento dos seus deveres na qualidade de dama da rainha. Este facto é que não vi discutido pela Correspondência quase limita a dirigir palavras menos convenientes a uma senhora, fugindo completamente da apreciação das causas que promoveram este rompimento. O Diario de hontem já publica o decreto acceitando as demissões que o duque e duqueza de Palmella deram de todos os seus logares no paço. O tempo esclarecerá mais este negocio. Esquecia-me dizer que a lista republicana para a nova camara teve em toda a Lisboa 200 votos entre 5:000 eleitores. Que desengano e que nomes que elles apresentaram! Era de fugir!!! O. A.