Uma carta de Napoleão
D’um jornal estrangeiro transcrevemos as seguintes linhas, que se referem no vulto de sir John Burgoyne, de quem ultimamente o «Jornal da Noite» nos deu uma interessante noticia que n’esta folha reproduzimos, e ao imperador Napoleão III: «Acaba a Inglaterra de perder um veterano dos seus exercitos, o marechal sir John Burgoyne. Fôra, ha 60 annos, nas guerras da Peninsula, um dos companheiros d’armas de Wellington, e mais tarde, na Crimêa, bateu-se ao lado dos francezes. Desde então, conservou as melhores relações com o imperador Napoleão III e, quando este foi aprisionado, sir John Burgoyne escreveu-lhe uma carta, á qual recebeu immediata resposta, que o “Times” publicou. É sobremodo curiosa a carta de Napoleão III, porque n’ella julga a campanha de 1870, e particularmente a marcha de Mac-Mahon e do seu exercito em direcção a Sedan. Eil-a: Wilhelmshboehe, 29 outubro de 1870.—Meu querido sir John: Acabo de receber a vossa carta, que me causou um immenso prazer, porque é uma prova evidente da vossa sympathia para commigo, e porque o vosso nome me recorda os tempos ditosos e de gloria em que os vossos dois exercitos combatiam unidos pela mesma causa. Vós, que sois o Moltke d’Inglaterra, havereis comprehendido que os nossos desastres provem de que os prussianos se acharam dispostos antes de nós, e tambem, por assim dizer, de nos haverem surprehendido em flagrante delicto de preparação. Sendo-me impossivel na offensiva resolvi tomar a defensiva; mas, por considerações políticas, demorou-se a retirada, que logo se tornou tambem impossivel. Volvi a Chalons e quiz conduzir a Paris o exercito que nos restava; mas por segunda vez obrigaram-nos as considerações políticas a surprehender uma marcha a mais imprudente e a menos estratégica, que terminou pelo desastre de Sedan. Eis ahi em poucas palavras, o que foi a campanha de 1870. Desejava dar-vos explicações, porque tenho em muito conta a vossa estima. Agradecendo-vos a vossa boa lembrança, renovo a segurança de meus affectuosos sentimentos para comvosco.—Napoleão.»