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Alentejo · Portugal Correspondência · Relatório

Começamos hoje a publicar o relatorio e contas da gerencia da Associação de caridade de Vianna do Alemtejo, relativo ao anno findo de 1872, que nos foi enviado pelo sr. Antonio José de Sousa, digno medico d’aquella villa, a quem se deve a instituição e conservação d’aquelle utilissimo estabelecimento. Praza aos Céos que institutos analogos se propagassem pelas differentes terras do paiz, onde ha muitas almas caridosas e com ardente desejo de minorar o soffrimento dos desvalidos, mas a quem falta o ensejo de applicarem productivamente as suas esmolas. Transcrevemos aqui parte d’um período do dito relatorio, que por si falla eloquentemente, e que poderá passar desapercebido a muitos leitores do jornal: «Creche, ou albergue infantil. N’este anno esteve aberta a creche em janeiro durante o resto da apanha da azeitona; em abril e maio por occasião das mondas; e em novembro e dezembro durante a apanha da azeitona. Nestes tres periodos esteve aberta a creche 105 dias, durante os quaes se recolheram e alimentaram 3:883 creanças (as creanças, que não figuram todos os dias). Despendeu-se em alimentos 50$930 reis e em pessoal e material 52$290 reis, o que dá 25 reis por dia approximadamente. Para demonstrar claramente o beneficio que com limitados sacrificios fizemos a grande numero de creanças e mães pobres, é sufficiente ponderar o seguinte: com o dispendio de 103$220 reis nos 105 dias que tivemos a creche aberta, melhorámos a educação physica e moral de 37 creanças, que, termo medio, diariamente recolhemos e alimentamos n’ella. Calculando os salarios das mães correspondentes ás 2:930 creanças recolhidas durante a apanha da azeitona a 100 reis temos 293$000 reis, e os das mães correspondentes ás 953 creanças que recolhemos durante a época das mondas a 60 reis temos mais 57$180 reis; total dos salarios que as pobres mães ficaram habilitadas a ganhar 350$180 reis. Se a esta quantia juntarmos a importancia dos alimentos que demos ás creanças, 50$930 reis, a de lavagem e concerto de roupa (pelo menos) 3$800 reis, que as ditas mães pouparam, somma o beneficio que fizemos 404$910 reis. Desta forma aquelles 103$220 reis, pela nossa associação gastos no custeio da creche, constituiram um capital que fez beneficios aos pobres na rasão de 392 por cento, e maior ainda foi, se quizermos metter em linha de conta o facto que lhes poupámos com o uso do uniforme que adoptámos na creche, que as creanças vestem por cima do fato que trazem, e com o evitar que andassem a espojar-se pelo chão, ou a trepar ás arvores e paredes; a educação physica e moral que receberam; os germens dos habitos d’aceio, regularidade e sociabilidade que se lhes incutiram; e os perigos a que escaparam, e a que estavam sujeitos pela incuria ou ausencia das mães. Aqui tendes pois esboçadas a largos traços as obras mais notaveis realisadas durante o 7.º anno social.»