Correspondencias—Serpa 27 d’outubro de 1874. Sr. redactor
No dia 22 do corrente tive o prazer de assistir a uma das mais brilhantes festividades que se tem visto nas povoações da margem esquerda do Guadiana:—foi a da benção da igreja de São Pedro do Sobral da Adiça. Pena é que não tivesse um fim similhante ao principio! Mais de 20 annos havia que esta povoação, habitada por perto de 2:000 almas, estava sem egreja. N’um casarão sem telhado, sem rebôco, sem ladrilho, menos do que um estábulo, era onde se celebravam os augustos mysterios da sublime religião do crucificado! Foi para a freguezia despachado parocho um mancebo cheio de boa vontade, intelligente, energico, o reverendo padre José Pedro Alves, e tratou de remediar o mal. Era herculea a empresa pela falta absoluta de recursos, mas não a temeu: o seu genio inventivo procurou-os, e os enormes desejos que tinha de dotar a sua parochia com um templo digno da magestade da religião apostolica, deram-lhe energia para os achar. Representou ao governo, poz em movimento todas as influencias, e obteve reis 2:500$000; juntou os seus parochianos, incutiu-lhes n’alma a necessidade de concorrerem com os seus obulos, e, como por encanto appareceram as matérias necessarias, e a obra teve um espantoso impulso, ao ponto de em pouco mais de um anno se achar concluida. Mas nem tudo foram rosas. O reverendo parocho teve muitos difficuldades a vencer, muitos desgostos que supportar. N’uma povoação rustica, onde os raios brilhantes da civilisação mal vão despontando, não podiam deixar de apparecer retrógrados, e appareceram e promoveram-lhe uma tenaz opposição, de que só a muito custo poude triumphar a energia do parocho e incontestavel utilidade do commettimento. Venceu a razão. A formosissima egreja foi concluida, e no dia 22 abriu-se para nella os fieis darem graças ao Ente Supremo! Foi esplendida a festa! Na noite de 21, n’um espaçoso largo, foi queimado excellente fogo preso e do ar, alternado por harmoniosas peças de musica tocadas pela banda marcial bejense, sendo tudo presenciado por innumeroso povo. No dia 22 milhares de pessoas de ambos os sexos, da localidade, villa e aldeias limitrophes, assistiam cheias de jubilo á benção do templo. A excellente philarmonica de Serpa, composta dos principaes cavalheiros desta villa; magnificas vozes do mesmo, de Beja e Coimbra, occuparam o côro, derramando harmonias pela amplidão do templo, e a banda marcial, tambem de Serpa, tocava no adro as melhores peças do seu repertorio. Celebrou o reverendo parocho, assistido de numeroso clero, e subiu á cadeira da verdade o eloquente senhor padre Antonio Manoel Franco, prior da freguezia do Salvador de Serpa, que mais uma vez mostrou de quanto era capaz o seu talento. E realmente, foi eloquentissimo na apologia da mulher christã, da sua influencia na sociedade como mãe, e da utilidade da religião! Até á conclusão da missa, nada ocorreu de desagradavel. Mas depois appareceu um malvado, chamado Manoel Leote, a quem influencias [ilegível] têm obstado que occupe em Africa o lugar que ha muito lhe pertence, a perturbar, interromper e acabar com as alegrias e prazeres ainda esperados! Armado de navalha catalã entrou pela casa do sr. João José da Motta Zorro, onde estava hospedada a philarmonica, e commettendo os serviços, esteve a ponto de assassinar um, o que não conseguiu, porque muitos cavalheiros accudiram e o desarmaram. A fera voltou foi ao seu antro e d’ali trouxe duas espingardas e collocou-se em frente d’aquella casa, disposto a matar quem apparecesse a qualquer porta ou janella. Foi milagre o não ter havido um ou mais homicidios, porque o malvado é um grande tiador. Estavam sitiados quinze ou vinte chefes de familia, e o que se mostrasse morreria! Mas appareceu de repente um punhado de defensores, elle, de casa pela espingarda, saiu em outra pelos quintaes, e encontrou-se com um valente soldado do 17 de infantaria, que o perseguira de perto. Aponta-lhe a arma e este, com uma rapidez incrível, lança-lhe a mão ao cano da arma, e trava-se entre ambos uma vigorosa luta; mas como o militar tinha uma das mãos occupadas com a sua espingarda, não poude resistir ao esforço do facinora e largá-la, que o malvado arrebatou. Em tão critica occasião, e já quando o denodado soldado ia ser morto, salta o sr. Joaquim Antonio Bulle um vallado, e empunhando um revolver, que o acaso lhe havia deparado, aponta-o ao peito do facinora e o intimida a que lhe entregue a arma, e em seguida foi levado para a prisão. É ao sr. Bulle, ao seu denodo, á sua muita coragem, que se deve o não ter morrido um bravo e talvez mais pessoas. Louvores para elle porque os merece! Pouco depois, e já quando a procissão estava para sahir, novo in- [ilegível] apparece e sem motivo algum offende atrozmente de palavras dois respeitabilissimos sacerdotes, os reverendos parochos Franco e Alho. Então chegou a indignação aos ultimos limites, e por isso immediatamente sahio da povoação, tanto a philarmonica, como grande parte das pessoas que tinham ido presenciar a festa, deixando por isso de haver procissão e de se cantar o Te-Deum. A indignação era geral, mas ninguém soffreu mais do que o reverendo prior o sr. Alves, visto levarem-lhe offendidas as pessoas, que unicamente para o obsequiarem haviam accudido ao seu convite, com o fim de fazerem uma festa estrondosa, por occasião da benção do templo devido aos seus esforços, a que ha muito se deviam, como todos os que sabem dos factos narrados, os desgostos do illustré parocho, desejando que nenhuns mais vão turvar o seu viver socegado e silencioso. Manoel Leote foi levado, em 23, por uma escolta de infantaria para Moura, mas antes fez-se uma cousa a que o juiz eleito chamou auto de exame e corpo de delicto, que segundo se nos diz nada examinava, nem a navalha, nem a espingarda apprehendida. É de crer que os senhores juiz de direito e delegado, homens com toda a rectidão que os caracterisa, farão tão escandaloso facto, e que farão punir o criminoso como merece, maximo sendo verdade o que no Sobral se asseverava—que o Leote tem muitos crimes, achando-se solto sob fiança. Agora mais duas palavras ácerca do parocho de S. Pedro do Sobral da Adiça. Por onde o sr. padre José Pedro Alves passa deixa sempre um rasto luminoso. Em tres freguezias tem parochiado e em todas deixou o seu nome e escripto com traços indeléveis. Eis alguns factos que comprovam o que assevero; em São Barnabé não havia cemiterio; os cadaveres estavam expostos á voracidade dos lobos; e aos esforços d’aquelle cavalheiro deve hoje a freguezia ter um logar de repouso, onde os parochianos ao extinguir da vida achem repouso. Não tinha adro a igreja parochial; foi feito. O povo concorreu para tudo com a melhor boa vontade, persuadido pelo seu digno pastor. Em Santa Luzia não existia um só paramento, que tal nome merecesse; a falta de roupas era total, e a igreja achava-se em deploravel estado. Os rendimentos da fabrica eram nullos;—ninguém pagava... O sr. Alves com as suas delicadas maneiras persuadiu até os devedores mais rebeldes a pagarem quanto deviam, e apparecendo o dinheiro, sem vexar o povo, fez consideráveis obras na igreja e sortio-a com abundancia de paramentos e roupas decentissimas. No Sobral, além da edificação da igreja, sua obra monumental, reconstruiu o cemiterio, que se achava em vergonhoso estado. Eis o que é, e o que tem feito o reverendo parocho o sr. José Pedro Alves, no curto espaço de tempo que tem de serviço. Quantos se lhe avantajarão mesmo contando muitos annos de lides parochiaes? Poucos, ou talvez nenhuns. É por isto, pela sua morigeração, pelo seu exemplar comportamento, que elle tem sempre adquirido a estima dos rebanhos confiados á sua guarda. Se assim fossem todos os parochos, outro seria o adiantamento civilisador do nosso paiz. Mas estará este talentoso sacerdote condemnado a viver sempre entre povos como o de S. Barnabé, Santa Luzia e Sobral? Não se attenderá aos seus merecimentos e serviços para que se lhe dê melhor collocação? É de crer, e fazemos sinceros votos para que o illustre parocho tenha todas as venturas de que é merecedor. Sou, sr. redactor, de v. etc. C. C.