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Correspondencias—Sr. redactor

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Lisboa · Ourique · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta · Romano

No 1.º numero do seu jornal vem inserta uma correspondencia datada de Ourique, que, á primeira vista, me inspirou o mais vivo interesse por me lembrar que tal correspondencia alludiria a um drama de traste espectacular, que havia [ilegível] montado; este drama compõe-se d’este prologo e quatro actos, com vinte quadros, figurando, como personagens, na maior parte, individuos desta localidade; mas afinal vi que era cousa bem differente. E não sabe, sr. redactor, o que isso me apetteceu? foi o [ilegível], naturalmente, que havia de apparecer no espaço da peça, e cujo auctor (note-se que é o da peça e não o do prologo, porque o drama tem mais de um auctor) queria a todo o custo encarregar-me do desempenho d’esse papel; e visto que toquei n’este ponto, seja-me permitido esclarecer d’aqui uma tal honra, repetindo ao mesmo tempo, com a dignidade que é propria e convém, pois conheço sobejamente que estes individuos, que eram das minhas relações, se tornaram meus inimigos, o primeiro porque lhe fiz demorar na Curia Romana um processo de dispensa para o casamento de sua filha com um tio, e o outro, talvez, por lhe ter feito demasiados serviços,—que o papel que me destinam não está no meu caracter; mas se s. s.ª persiste na exigencia, terei, talvez, de o satisfazer, podendo affirmar-lhe, sem receio de errar, que vou assassinar a peça, e que aquelle eximio trabalho não terá o realce que póde ter se o referido papel fôr confiado á pessoa mais competente, pois ha aqui mais de uma a quem muito se ajeita, e se sua s.ª acceder a isto, eu responsabiliso-me pelo optimo resultado. Este drama, sr. redactor, é um processo crime que se tem elaborado n’aquella villa, em que eu sou querellado, junto aos do prologo, os ex-gerentes da confraria do Santissimo Sacramento, erecta na matriz d’esta villa, e da peça o ill.mo sr. Bernardo de Mello Cabral, delegado do procurador regio nesta comarca, figurando como actores, na qualidade de testemunhas, os meus inimigos pessoaes e politicos, e entre elles não são vinte, numero preciso para [ilegível], foram chamados alguns d’aquelles e pessoas de intimas relações e parentes. [ilegível]. Vou pois, sem mais delongas, entrar na materia, descrever as cousas sem commentarios. No dia 10 de dezembro do anno de 1873, tomei de arrendamento á irmandade daquella confraria uma pequena herdade pelo tempo de seis annos, não obstante ver que ella não tinha procedido preventivamente ás solemnidades legaes, e que, em presença das leis da desamortisação, era [ilegível] nulla; mas aceitei-a por esse tempo para evitar que todos os annos se fizesse novo arrendamento. Lavrou-se d’isto um accordam, cuja essencia por ser [ilegível] e na essencia por ser illegal; e logo se escreveu a escriptura, mas afinal nem accordam nem escriptura vale nulla, porque a irmandade não podia conferir-me direitos que as leis lhe negam positivamente. Decorridos alguns mezes, recebeu-se aqui ordem para se activarem os trabalhos para a conclusão dos inventarios dos bens sujeitos ás leis de desamortisação, e, como por milagre, appareceu logo concluido o inventario dos bens da confraria do Santissimo, e pouco tempo depois annunciada a venda da herdade em questão para o dia 13 de janeiro d’este anno, sendo muito para notar que mais inventario algum se tenha concluido! Continuei com este: soaram logo rumores de que o sr. Alonso Guidas pretendia a propriedade por todo o preço, não por conveniencia que lhe fizesse, porque não tem ali mais nada, mas por desforço de defeza imaginaria, por lhe metterem na cabeça que a mesma me fazia sensivel falta por ter outras contiguas; em presença d’estes rumores, fiz logo tenção de ir a Lisboa, não a comprar a propriedade, porque a não pretendia em consequencia de ter sido logo avaliada com exaggero, mas para [ilegível]. [ilegível]. [ilegível]. A. Botelho e Cura.