A milagrosa agua de Lourdes está fazendo suar o topete aos nossos doutores alfandegueiros. O caso é serio. O sr. visconde de Alcáçovas pediu o despacho na alfandega de Lisboa de duas caixas contendo quarenta e oito garrafas da citada agua milagrosa. O que succede é que a pauta não diz nem palavra a respeito do precioso liquido, e os verificadores por isso acharam-se seriamente embaraçados sobre a classificação que lhe deviam dar. Eram uns de parecer que a agua fosse despachada como medicamento, embora só fosse usado pelas beatas; ao que outros se oppozeram, e pediram que fosse enviada uma das sobreditas garrafas para um laboratorio chimico afim de ser ali examinado o liquido que continha. Opinavam outros que a agua fosse entregue livre de direitos, como agua pura. Não chegaram a accordo os srs. verificadores, e a questão tem de ser resolvida pelos santos do conselho geral das alfandegas, que decerto darão ao diabo a bendita agua de Lourdes, mais os que acreditam nos seus maravilhosos effeitos. O melhor, porém, do caso foi que as velhas e também as moçoilas que dirige espiritualmente o padre Vieira — o tal do caso da Misericordia — constando-lhes que existia na alfandega uma porção de agua de Lourdes, dirigiram-se para lá, e sabendo que por uma miserável questão de dinheiro, do vil metal (estilo do dr. Faro) a não entregavam a seu dono, enfureceram-se santamente e desataram a piedosa lagriminha! Agora o verão! Fizeram tão grande beata que o reverendo Vieira, que também se achava presente, teve de as exorcismar. Depois as beatas retiraram-se, levando na frente o santo varão que, ainda quando não cria na virtude therapeutica da agua de Lourdes, já pregava, a troco de bons pintos, é claro, a sua efficacia na cura da espinhela caída. O reverendo ia gerumbatico, meditabundo. Em que iria elle potafuzando? Talvez na impiedade dos homens d’este seculo que não acreditam no sobrenatural, e que — é monstruoso! — teem o despejo de rir dos milagres que os tartufos fabricam para que o cofre da Companhia se encha depressa. Foi-se o sr. padre Vieira... potafuzando nessas coisas. Mais duas palavras, reverendo. Christo — vossa reverendissima conhece? — o modelo da mansidão, da bondade, da paciencia, perdoou ao assassino, á adultera, ao impio; mas quando encontrou os vendilhões a traficar no templo, sabe o que fez? Expulsou-os de lá a açorrague. Ora, se os perversos liberaes, esses homens de maus figados que os filhos de S. Ignacio perseguem continuamente com os seus anathemas, se lembrarem um dia de dar aos bellos milheiros religiosos o premio dos bons serviços que estão prestando o mundo, exigindo severa providencia do que por ahi haverá! Agora um conselho, e não lhe pedimos dinheiro por elle, o que, se não faz lá na synagoga jesuitica, onde só se dá de graça a descompostura, a calumnia e a punhalada pelas costas — Padre Vieira, tenha prudencia e juizo; e diga isto lá aos seus confrades, ouviu?
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