Noticias de Serpa
Sr. redactor—Arrastado pelos vehementes impulsos da humanidade venho, em nome da pobreza, á imprensa, instituição santa e sublime, a dizer-vos que a medonha e feia fome vem com seus cabellos hirtos, olhos macerados, faces encovadas, rosto macilento e suas descarnadas mãos, acommetter os afflictos serpenses. Dia e noite encontram-se pelas ruas da povoação crianças, velhos e moços estendendo a mão á caridade publica, mas esta não é só por si bastante para mitigar a fome aos infelizes, em presença d’uma tão grande calamidade como é a falta de moagens e de trabalho. Mas poderá Serpa, sr. redactor, suavisar estas tão afflictas circumstancias em que se acham os serpenses?—Póde, e eu com a devida venia, venho lembrar á illustre camara a persistencia nos officios dirigidos ao governador civil; patenteando-lhe a necessidade absoluta que ha de authorisar a camara a construir o lanço de estrada comprehendido entre Aldeia Nova e Serpa, ou entre Casa Branca e Brinxes; pois é absolutamente indifferente começar por aquelle ou continuar este. Qual será a razão, sr. redactor, porque existindo no cofre das estradas nove contos de reis, pouco mais ou menos, se consente que Serpa soffra os horrores da fome, e não se lhe dê a devida applicação, n’uma estação tão calamitosa como esta que atravessamos? Será por negligencia da camara? Não, pois consta-me que tem cumprido com os deveres. Será por negligencia do conselho do districto? Não sei. Em nome da classe pobre pede-se a quem competir que dê as devidas providencias, já que dinheiro este mal dando-lhe o abrigo que é a sua riqueza. Se as pessoas que teem culpabilidade em que este dinheiro existe no cofre, sem aproveitar a ninguem, tivessem visto, ao entrarem em casa, estampados no rosto de suas mulheres e filhos os medonhos affeitos da fome, fariam maiores esforços para que ao referido caso se desse prompta e devida applicação.