Correspondencias
Na freguezia de Santo Amador, concelho de Moura, e no domingo 12 de março, quando o parocho d’aquella freguezia entrou na egreja para celebrar a missa parochial, qual não foi a sua surpresa, vendo levantar-se as mulheres, e os filhos, a empurrões e vozeria de fóra... fóra... expulsaram do templo o encanecido sacerdote!! Os esposos das malaventuradas mulheres estavam á porta da egreja regosijando-se do valor intrépido das suas caras metades e filhos!! Nem respeitaram os seus 80 annos de idade!! nem o seu genio bondoso! Nem os immensissimos favores que do seu prior teem recebido aquellas desgarradas ovelhas!! porque, soccorrendo-as, já emprestando-lhe dinheiro, já pagando por ellas fianças, gastou tudo que levou para aquella freguezia!! De nada lhe serviu tudo isto?! É assim desgraçados?! que educaes a vossa prole?! Quando lhe ensinares a lei de Deus, e chegardes ao quarto mandamento=honrar pae e mãe—não vos perguntarão esses innocentes: pae para que serve tudo isto?! para que serve a egreja?! Pode ella existir sem sacerdotes? Quem é que diz a missa?! não me mandaste que expulsasse da egreja o meu padrinho que me fez christão? Pois não era elle o que pedia por todos nós, quando dizia a missa?! Não vos coram as faces do pejo?! Não sentes tranzir de dôr o coração por tão grande blasphemia?! Quem nos hade consolar, quando no leito da morte, já exaustas as forças, proximo o instante a alma a desprender-se dos bens terrenos?! Quem?! repetio ainda o innocente? apresentará ao Altissimo as nossas preces? Pois não é o meu padrinho destinado por sua missão, para nos consolar? Pois não é elle que nos acompanha em todos os actos da nossa vida desde o berço até á sepultura? Para que me mandaste meu pae praticar esta acção?! Cala-te, faze o que mandei. Olha filho?! eu não quero pagar a congrua, e o teu padrinho mandou-me relaxar. Mas... o pae tem-me ensinado, que é peccado que brada ao ceu não pagar aos o jornal aos que trabalham! vae... vae... isso é outra cousa, os padres devem servir de graça! senão! fóra com elles. Eis a face de tão repugnante e vandalico attentado. Pobre velho?! Se outr’ora pugnaste pela santa arvore da liberdade, se soffreste o exilio em terra alheia para a veres frondosa, de nada te serviu! Retira-te pois, meu bom velho!! deixa os espiritos obscenos! Pede ao Eterno Pae, perdão para os que tem mal comprehendido a tua alma candida! A justiça da terra embora castigue os delinquentes! mas tu perdoa-lhes... Imita o Divino Mestre, que do alto da Cruz, pedio perdão para os que lhe tiravam a vida. Cumpre ás auctoridades desagravar tão grande attentado. Ficando elle impune, não soffre só o clero, mas toda a sociedade em geral. Estamos convictos que o ex.mo sr. delegado do procurador regio tomará á sua conta a punição de tão repugnante crime. Com firme confiança esperamos do meretissimo sr. juiz de direito que mais uma vez provará, com que rectidão cumpre as leis, tornando-se, mesmo para os que soffrem o condigno castigo, o homem sympathico, o juiz recto. O reverendo tem, alem de 80 annos, padecimentos que o obrigam a sahir da freguezia tratar da sua saude, isto mediante a competente licença. Outras vezes vae coadjuvar os parochos seus visinhos, deixando em sua casa criado para o chamar, quando seja preciso na freguezia. Que mais querem os seus freguezes? Cumpre o parocho de Santo Amador com as suas obrigações? se não cumpre, tem os freguezes em seu favor os meios de petição, de queixa; mas nunca valendo-se de meios tão repugnantes á boa educação, o desenvolvimento que o seculo 19 tem legado aos que são testemunhas dos telegraphos electricos, e caminhos de ferro a vapor!!! O que se praticou na egreja de Santo Amador, é retrogrado, é de vandalos, e com tal procedimento nada ganha a sociedade. Já de ha muito tempo, que aquellas figuras humanas ameaçavam o seu parocho, se D. Carlos em Hespanha subisse victorioso; porque? então reinaria em Portugal D. Miguel 2.º?! sendo assim ai! do prior de Santo Amador!! Nem a queda de D. Carlos em Hespanha lhe obstou a darem o couce. Pela inserção d’estas linhas lhe fica summamente agradecido, o De v. etc. 22 de Março de 1876. R. J. Comparet, cura.