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Artigo

Milagre!

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Igreja · Interpretacção incerta

No noticiário do primeiro numero d’este jornal dissemos, que por causa da chuva não pôde este anno sahir a procissão de Ramos, e omitimos um caso que então se deu na igreja do Carmo. Foi o seguinte: É costume sahir da igreja do convento das Religiosas da Esperança a imagem do Senhor da canna verde para a igreja do Carmo, d’onde sah(e) a procissão. As solicitas Religiosas mandaram este anno avivar as chagas da dita imagem, por se acharem um pouco desbotadas; como porém todo esse dia chovesse, aconteceu que a tinta não pôde seccar, antes pelo contrario, pela continua humidade começou a correr pelo corpo da imagem. O povo que vê isto começa de bradar—Milagre! Milagre! Corre esta voz pela cidade de maneira que quasi todos os habitantes correm á igreja do Carmo. A imagem estava já no altar, e sobre ella a tinta continuava a escorrer. O povo já dizia que era sangue; e viam-se alguns devotos com lenços a recolher o tal sangue. Havia quem chorasse, outros que não acreditavam. O caso tomou tamanha proporção, que no meio de tanta gente, e de tão acalorada discussão, se chegou a temer que houvesse desordem. Um devoto, mais ardente, e que vinha de longe, queria já que se chamasse o sr. Bispo, para ir reconhecer o milagre; outros porém abriam os olhos, a tratal-os de casquinhas e incredulos; e já queriam que S. Ex.ª o Sr. Bispo fosse á igreja para aparar o sangue milagroso. Talvez ainda hoje alguém acredite n’este pretendido milagre.