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Beja · Évora · Portugal Interpretacção incerta

El amor y almuerzo, La Tramoya e Las tres Marias foi o espectaculo que tivemos domingo no theatro provisorio. Tres zarzuelas nem menos, mas duas El amor e Las tres Marias cabe-lhes melhor a denominação de sainetes ornados de musica! São duas farças, fallando portuguezmente, mas farças que não primam na agudeza do ditto, nem no comico das situações. Os actores forcejaram por dar-lhes vida e a platea avaliou o seu trabalho; agradaram-lhe os actores mas ficou enfadada com os auctores. Veio porem a Tramoya e deu sorte. Esta zarzuela é muito conhecida em Beja. Larrilder deu-a no antigo theatro de S. Francisco e Münné cantou no theatro da rua dos Escudeiros, as scenas principaes com sua irmã D. Camilla. Não confrontaremos. O que lá vae, lá vae. A Tramoya tem o cunho verdadeiramente hespanhol; a musica o seu caracter peculiar. Agrada quer na parte declamatoria quer no canto. Um bom musico não encontra opulencia de instrumentação na partitura, mas ha trechos formosissimos. A canção do tenor, por exemplo, é bella e o sr. Benitez cantou-a bem; o sr. Larripa, apesar de muito incommodado, disse o seu papel com calor, energia e graça. Vê-se que o interpreta discretamente. As damas foram muito bem no duetto. O baixo, que ouvimos pela primeira vez, não nos desagradou. A pedido a sr.ª Lacida cantou uma malagueta. Aquella voz pura e bem timbrada sentio-se ali desafogada e arrancou á platea muitas palmas e bravos. E o publico applaudindo só foi justiceiro; diga-se toda a verdade. Antes de hontem subio á scena El Relâmpago. O argumento, o libretto, é o drama Fuego del cielo ligeiramente modificado em algumas situações. A partitura é de Barbieri e considerada como a melhor de suas producções. Interpretaram a zarzuela os srs. Larripa (Jorge), Benitez (Leoni) e as sr.as Lacida (Enriqueta) e Blanco (Clara). É pena que a zarzuela não fosse posta por parte do director de scena como convinha. A tempestade, pelo mal disposto, não produzio effeito; o toldo, collocado sobre a porta da casa do primeiro plano, feria a vista. Pois custaria muito dar uma côr preta aos sarrafos e listar de azul ou encarnado a grosseria? Quer-nos parecer que não. No theatro sabemos que ha bancos de jardim. Porque se não serviram d’elles em vez do canapé de Evora? E os bastidores porque os não completaram com os repregos que lhes são proprios? É aphorismo no theatro «com a scena bem decorada está a peça meio desempenhada» e é uma grande verdade. Convem por tanto que de futuro haja mais algum esmero scenico e no interesse da companhia e só por elle, fazemos estas observações, que confiamos não serão desattendidas. Mas vamos ao desempenho. Orchestra e cantores estiveram felicissimos. Não será muito facil desempenhar-se, no conjuncto, El Relâmpago em theatros de segunda ordem, como o foi na noite de hontem no theatro provisorio. Se os córos, especialmente no segundo acto, mostraram pouca firmeza, desculpam-se pelo bem que andaram no acompanhamento do quartetto do primeiro acto. As sr.as Blanco e Lacida no duo do primeiro acto foram por vezes interrompidas pelos bravos e palmas que rebentavam espontaneas da platea; o tenor, na aria do mesmo acto, Salve my patria, foi enthusiasticamente victoriado e na aria do terceiro acto Por volver á verla un dia, teve uma ovação e mereceu-a porque realmente cantou com sentimento. Mostrou o sr. Benitez que possue coração de artista. O segundo acto correu bem mas a prece, a aria Mortal violencia, foi cantada pela sr.ª Lacida com aquelle mimo que costuma imprimir aos papeis que lhe são confiados. Vio a distincta cantora nas demonstrações que recebeu que se sabe avaliar o seu trabalho. O sr. Larripa, em toda a zarzuela, foi actor consciencioso. Teve dittos felicissimos e na partilha de applausos coube-lhe bom quinhão. El Relâmpago deixou as melhores impressões e oxalá que todos os espectaculos as deixem eguaes. A acontecer assim bem irá á companhia. E já agora não fecharemos esta noticia, sem darmos um abraço no nosso velho amigo Antonio Vital (flauta) e no sr. Leocadio Osorio (clarinete) pelo bem que acompanharam, aquelle a aria de tiple do segundo acto e este a do tenor no terceiro. Bem sabemos que ferimos a sua modestia mas não os especialisamos seria uma injustiça. O espectaculo de domingo vae annunciado na secção respectiva e agita-se para serem postas brevemente em scena as zarzuelas Marie e D. Jacinto. Duas operas nem mais nem menos.