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Artigo

Mertola 11 de dezembro de 1876. Meu bom amigo e sr. Palma

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Mértola · Portugal

Como já deve saber, esta villa acaba de soffrer uma das mais lastimosas catastrophes, que podem affligir uma povoação inteira. A brutal e medonha cheia do Guadiana nos dias 6 e 7 do corrente, dias que entre nós hão de ficar tristemente celebres, reduziu á completa miseria um grande numero de familias, e causou perdas consideraveis a outras, que estavam em melhores circumstancias, levando-lhes mobilias, madeiras, arvores, sementeiras etc., e derribando e devastando campos, armazens, casas de habitação, e finalmente tudo quanto encontrava a sua corrente impetuosa e destruidora. Foram dois dias de profundas afflicções e de inextinguiveis magoas para a maior parte dos habitantes de Mertola, a quem a desgraça affrontou. Profundamente consternado, como todos nós estavamos e estamos, por tanta miseria e desgraça, e desejando quanto em minhas forças caiba ver se d’algum modo é possivel minoral-as, vou pedir-lhe um obsequio, e empenhar os sentimentos caritativos de v. ex.ª na realisação d’uma ideia, que deve ser altamente sympathica a todos os que abrigam no coração o santo sentimento da caridade, a de abrir na redacção do Bejense uma subscripção a favor das victimas, que mais soffreram n’aquelles calamitosos dias com a cheia do rio. Muito me obrigará v. ex.ª com mais este favor, para o qual de certo achará v. ex.ª sobeja recompensa na satisfação da sua boa alma, e nas lagrimas de reconhecimento, que hão-de derramar os infelizes, a quem v. ex.ª levar os meios de subsistencia. Esperando este favor, permaneço com a maior consideração—Dev. ex.ª—amg.º certo e crd.º obrg.º—Manuel Ignacio de Mello Garrido.