O Menino Jesus
Na «Escola de Betem» diz o padre Alexandre de Gusmão: Que diriamos nós da sabedoria d’aquelle lapidario, que em uma joia tão pequena engastasse a pedraria de todo o Oriente? Que diriamos d’aquelle pintor, que em um pequeno quadro retratasse a redondeza toda do universo, com os successos todos desde a creação do mundo? Que diriamos d’aquelle artifice, que em uma breve concha, recolhesse as immensas aguas do oceano? Que diriamos d’aquelle doutor, que em um breve volume, recopilasse os princípios de todas as artes, os axiomas de todas as sciencias, de tal sorte, que n’aquelle só livrinho se contivessem todas, com a mesma clarosa, que em todos os mais volumes? E pois não está isto tudo, com maior vantagem, n’aquelle corpinho, n’aquelle menino? Não sois vós o pequeno quadro, ou imagem natural do Padre, em que Deus retratou todo o ser de sua substancia, que é maior que o ceu, e maior que a terra? Não sois vós, a breve concha, ou madre pérola preciosa, em que se recolheu o immenso pélago da eternidade, immensidade e infinidade de Deus?... Se houvera ahi uma flor tão formosa, que encerrasse em si a formosura e perfeição de todas as flores; que tivesse o encarnado da rosa, o branco da açucena, o fragrante do jasmim, o magestoso do cravo, o cheiroso da angélica, o suave da violeta e o misterioso do girasol; que flor seria esta tão bella e formosa! E pois não é este menino, essa flor, que nascendo no campo, encerra em si a formosura de todas as flores do campo? Quão bello e quão formoso nasce! E pois meu bello e meu formoso, se vós sois um mestre de tão linda e aprasivel condição; se vós sois tão benigno, tão manso, tão callado, tão sabio, e tão formoso; como buscam os homens outros mestres do mundo e não a vós? Como frequentam a escola da Babilonia, e não a vossa de Betem? Os homens do mundo, tudo é amontoar rumores, que fallam ao ouvido e deixam o coração vazio; e vós, que sois mestre, que só fallais ao coração, não ha quem vos busque, nem quem vos ame!