9 de julho
Para solemnisar o anniversario do dia 9 de julho de 1833, em que uma força constitucional, por movimento strategico vantajoso á expedição do nobre duque da Terceira sobre Lisboa, veio a esta cidade destroçar a tropa de D. Miguel que aqui estava, pôr em alarma a divisão do general Mulolhos que operava no Alemtejo, e reunir o grande numero de liberaes que só esperavam occasião opportuna de se associarem aos seus correligionarios combatentes — sahio o digno coronel do regimento d’infantaria n.º 17 com o regimento em ordem de marcha pelas 3 1/2 horas da manhã, com a rapidez e segredo possivel, pela estrada que conduz á aldeia da Salvada e tendo percorrido proximamente seis kilometros e um terreno adequado, deu um pequeno descanço, dispoz o regimento em marcha de campanha e poz-se de novo em marcha para a cidade. A distancia conveniente, suppondo forças inimigas na cidade, mandou que a guarda avançada unida formasse linha de atiradores e respectivo apoio e continuou assim a marcha até 600 metros da cidade e ahi encarregou o official immediato, o nosso amigo o digno tenente coronel o sr. Moraes, do commando da ala direita e lhe ordenou que atacasse e desalojasse a força, que se suppunha no quartel — e que estava representada pelos recrutas do regimento os quaes se achavam na instrucção da manhã convenientemente municiados — em quanto elle coronel, com a ala esquerda, se dirigia a surprehender uma força de cavallaria que devia imaginar-se alojada em uma estalagem no sitio chamado a Corredoura e varreria as immediações percorrendo depois a praça e differentes pontos da cidade até fazer juncção com a ala direita. A maior parte porem dos habitantes da cidade, surprehendidos com as ordens que da vespera se tinham dado ao regimento, estavam a essa hora levantados e parte d’elles acompanharam o regimento durante todo o trajecto, com o fim de disfrutarem o bello effeito de uma marcha e exercicio novo para elles. O commandante da ala direita do regimento tendo tomado o seu commando e suppondo encontrar um posto avançado do inimigo, fel-o desalojar e pôr em retirada pelos seus atiradores; e suppondo que á rectaguarda se achava outro posto empregou com egual bom exito a mesma operação. Approximando-se da rectaguarda do quartel do regimento percebeu que a sua marcha era por ali descoberta e que alguma tropa se achava na antiga cerca, hoje parada do quartel, para lhe estorvar o passo; ordenou pois que um pelotão a destruisse fazendo-lhe vivo fogo, em quanto perseguia com os atiradores e um pelotão de reserva a força dos dois postos inimigos que tendiam a reunir-se e torneava o quartel afim de o invadir e cortar a retirada á tropa que estava na referida extincta cerca, que representava os realistas que em 1833 d’ali tentaram defender-se; teve porem que carregar á bayoneta duas vezes e perseguir com descargas o inimigo, que alguma resistencia offereceu, terminando por dar uma com dois pelotões sobre a força que tendo ganho a porta da extincta cerca retirava em ordem, a principio, para subir da cidade pela rua de S. Francisco, o que se suppoz executar já em debandada de forma a não ser alcançada ainda que perseguida. Por tanto o commandante da ala direita vendo o quartel desimpedido e a impossibilidade de fazer prisioneiros, mandou metter em columna cerrada, e descançar e alli esperar os successos posteriores, porque apenas de espaço a espaço ouvia fogo da ala esquerda que denunciava a desnecessidade de coadjuvação. Esta expectativa não foi demorada porque a poucos passos desembocava no largo 9 de julho, onde estava a ala direita, a ala esquerda do regimento á frente do seu coronel tendo, como premeditára, posto em fuga precipitada a imaginada força de cavallaria e desembaraçado e explorado completamente todas as ruas por onde podiam achar-se inimigos até ao objectivo da empreza. N’esta occasião tocou a musica o hymno da carta, subiram ao ar algumas duzias de foguetes, mandados lançar pela Sociedade dramatica artistica, e o regimento foi em seguida a quartéis para comer o rancho da manhã. A maior parte dos habitantes da cidade correram a presenciar a parodia militar que se representava, e todos se mostravam satisfeitos, porque era realmente agradavel ouvir o fogo dos atiradores e a espaços descargas de pelotões bem executadas e ao mesmo tempo ver os diversos movimentos de duas linhas d’atiradores com os respectivos apoios, substituindo-se, mudando de frente, obliquando etc. resultando de tudo um divertimento agradavel ao publico, e uma perfeita instrucção para o regimento.