Aljustrel
Correspondencias, 9 de outubro. Ainda não vieram as certidões que em 17 de agosto se pediram á camara nossa senhora deste infeliz concelho! Isto quer dizer que elles se arreceiam de as passar porque se descobriria nelas quantas infamias e intrujices elles teem feito: que a camara está composta de homens que não sabem o que é dignidade sem vergonha, porque não ha nem um só que tome a peito o nosso direito, obrigando o escrivão a passar as certidões que lhes pedimos: que o homem Rasquinho obrigado como foi a depôr as armas na convenção de Evora-Monte, quer tambem ser obrigado a passal-as; pois não lhe esperamos mais sr. Rasquinho, estamos resolvidos a pagar-nos com usura da espera que lhe temos dado. O sr. Rasquinho não mostrava muito que tinha sido miguelista; julgámos até, que tinha servido de lição o que viu nessas luctas em que a liberdade triumphou do absolutismo; enganamo’nos, peior para elle porque lhe havemos de mostrar que se a lei manda escrever por extenso o numero dos recrutados e a tinta, elle os escrevia a lapis e em algarismo em nome da patria, rei e altar, como tantas vezes se mostrou. Havemos de massacral-o porque um homem que nos quer tolher dos nossos direitos, não é digno de commiseração. Não ha pena que possa descrever os escandalos desta terra, a sangue frio: não ha homem que se não deixe arrastar pelo instincto da vingança, por muito leal e generosa que seja, ao ver tanta infamia e tanto descaramento. Parece que a maldição cabio sobre esta terra para tudo se conspirar contra ella; uma camara como se tem patenteado má em todo o sentido, administrador analphabeto e despotico até á raiz dos cabellos, juiz vingativo, ignorante e desobediente, e para completar o andôr, o sachristão! Isto é muito é verdade! mas que fazer quando aquelles que lhes deviam pôr peias são os primeiros a dar-lhe corda? Com que direito cobra hoje o sachristão o dobro do que antigamente cobrava por signaes e repiques? quem é que lh’o consente? com que direito exigiu elle 60 reis a um individuo da aldeia por não assistir a um jantar do baptisado? Esperamos providencias sobre este trafego e pedimos ao reverendo parocho que obrigue o seu sachristão a limpar a egreja porque está indecentissima e contente-se por ora: o resto ficará para outro dia. Pedimos ao sr. Antonio Aniceto que tome cuidado com a administração da misericordia; é preciso [ilegível], que os fóros precisam registados, porque quer uma quer outra cousa póde prejudicar muito a boa administração desse estabelecimento e que tenha cuidado com a admissão dos doentes, alias ver-se-ha em grandes difficuldades. Sobre tudo oiça a sua consciencia e deixe-se de ouvir os buldomeras pagodeiros que lhe querem matar nas mãos os seus creditos de homem honrado. É preciso ter energia para não succumbir ás azas de aquelles que tudo era pouco para os saciar da fome. Chamamos a attenção do meretissimo juiz de direito par o seguinte facto: Manoel Pereira, de Ervidel, veiu á administração d’este concelho queixar-se de que um individuo da mesma aldeia lhe arrancou algumas oliveiras e lhe vendimou a novidade da vinha ainda em verde, de uma sua courella; levantado o respectivo auto foi este remettido para o juizo da comarca, e d’ali ordenado em principio de julho, ao ordinario juiz deste julgado, para levantar um auto de corpo de delicto. Pois até hoje ainda se não deu um passo, e como nós gostamos de curiosidades, sempre queremos ver o que hade dizer o auto com respeito á vindima da uva! Fique v. ex.ª sabendo que o juiz não cumpriu com as ordens que v. ex.ª lhe deu porque não quiz e temos nós por consequencia um delicto desta ordem sem o castigo que as leis lhe impõem. Pedimos pois a s. ex.ª providencias e sobretudo que nos livre do senhor da manteirinha porque não serve para official de diligencias, quanto mais para juiz. O caso é que elle já ganhou 300$000 reis por exercer esse cargo em cada um anno que serviu!!! Por hoje pedimos providencias e paciencia aos nossos leitores com este sudario de miserias.