Expediente
Retirámos d’a nossa noticia sobre a grande festa do progresso, para darmos aos nossos assignantes a seguinte que o sr. Pinto Neves nos enviou e cuja publicação nos pede: 14 de fevereiro.—Esse dia tão desejado pelos habitantes de Beja chegou finalmente! O silvo da locomotiva annunciou ao povo desta cidade, não o seu primeiro passo na senda da civilisação, porém mais um no caminho do progresso. Pela 1 e meia hora da tarde aportou á estação do caminho de ferro, junto a esta cidade, a primeira machina que vinha dizer aos seus habitantes:—Eis-vos emfim ligados com a capital da nação mediando entre vós e ella a pequena distancia de 8 horas de caminho—eis o homem amigo do progresso cumpridor de vossos desejos. Quanto não era bello e magestoso o espectáculo que nos apresentava a rampa que desce desde a cidade até á estação! Como era grata á vista a alegria que se via estampada no rosto de todos! Quanto era digno de attender-se o desejo que todos indicavam de poder n’esse instante saudar a locomotiva dizendo-lhe: Salve rainha do progresso. Não era só a folgança do rico e do abastado, era o pobre o indigente! que folgava tambem no festim alheio e que todo era seu. Com comprida mesa descrevendo uma longa curva com 500 jantares para os pobres, tendo como pontos extremos dois coretos para as bandas de musica do regimento d’infantaria 17 e philharmonica dos artistas, fora collocada no plano mais apropriado junto á estação, na frente desta formava em linha de batalha o regimento d’infantaria 17 commandado pelo illm.º sr. tenente coronel trajando grande uniforme e embandeirado, sendo todo torneado por infinita quantidade de pessoas de todas as idades, sexos e jerarchias que se tocavam e que respiravam a mesma alegria não vendo entre si mais do que irmãos na vontade e no desejo. A locomotiva aportada trouxe para entre nós por algumas horas um grande numero de cavalheiros de distincção entre elles os exm.os srs. duque de Loulé, João Chrysostomo d’Abreu e Sousa, José da Silva Mendes Leal, visconde de Sá, marquez de Ficalho, barão da Foz, Antonio de Serpa, Ramiro Coutinho, Silva Branco, Fortunato de Mello, Teixeira de Vasconcellos, Santos e Silva, Sant’Anna e Vasconcellos, Vieira da Silva, etc. etc. Apenas todos os visitantes desceram das carruagens tendo sido recebidos pelos exm.os cavalheiros: governador civil do districto, seu secretario e seus empregados, delegado do thesouro com seus empregados, empregados do correio com o seu 1.º official, commandante do regimento d’infantaria 17, director das obras publicas e seus empregados, administradores dos concelhos de Beja, Serpa, Almodovar e Aljustrel, e todos os conselheiros do districto, seguiu-se a ceremonia da benção á machina, pelo exm.º bispo de Lamego, ouvidor desta diocese, sendo n’este acto acompanhado por todas as pessoas que tinham tido a honra de ser convidadas e pelo exm.º sr. deputado Marianno de Sousa á frente da camara municipal do concelho. Em seguida teve logar um bem servido e abundantíssimo lunch, mandado servir pela companhia constructora a todos os convidados excedendo estes o n.º de 180. N’este acto fizeram-se 4 brindes. O 1.º do exm.º presidente de ministros á prosperidade do districto de Beja. 2.º do exm.º ministro da marinha, Mendes Leal, á companhia constructora, 3.º do sr. deputado Sant’Anna e Vasconcellos aos habitantes da cidade de Beja. 4.º do exm.º governador civil á prosperidade do districto e ao ministério actual. Até aqui o grande, o maravilhoso, agora o sublime. O castello de D. Diniz erguido no extremo opposto da cidade, que mirava com olhos de mais de dois séculos, este espectáculo grandioso, foi o primeiro a fazer subir aos ares uma girandola de foguetes quando olhando de fronte erguida para o norte, vio ainda longe de si a garbosa locomotiva que galgava soberbamente parecendo mimosa dama soccando de leve com as plantas o solo! Atraz desta girandola e até alta noite subiram ao ar girandolas mil. Pelas 3 horas da tarde ao indigente que até já contemplava com rosto alegre e prazenteiro foi servido de um belo jantar, composto de um arratel de vacca, meio d’arroz, meio de toicinho, um pão, 40 reis em dinheiro e 4 laranjas, sendo distribuidos pelos exm.os ministros, governador civil, bispo, Marianno de Sousa, e commandante do regimento 17. Em seguida foi igualmente distribuido pelos mesmos cavalheiros, no edifício da casa pia um abundantíssimo jantar ás praças do regimento 17 e aos alumnos da mesma casa, mandando-se distribuir esmolas avultadas ás amas dos expostos. Os músicos do regimento tambem foram contemplados, mas dizem-nos que houve distincção entre os de praça e contractados na quantidade dos generos distribuidos. Quanto não vai de grandioso e sublime praticado em tão curto espaço?! quanto não merece aos olhos de Deus e dos homens o exm.º Marianno de Sousa que tanto fez a suas expensas? Á noite a maior parte dos habitantes da cidade illiminaram as suas habitações. A companhia dramatica Viuva Lopes deu-nos como recita Os filhos dos Trabalhos, e uma pequena comedia fechou o espectáculo, tendo sido grande numero de bilhetes mandados distribuir de graça pelo sr. Marianno de Sousa, satisfazendo s. ex.ª o restante dos bilhetes que não pudessem ter tido venda. Uma grande reunião de famílias a que assistiram approximadamente 200 pessoas teve logar no club bejense aonde tudo foi servido com abundancia e profusão. Salve, eu vos saudo habitantes de Beja, inimitáveis no abraço fraternal, na recepção que fizesteis aos vossos irmãos da capital! Salve, tres vezes salve! Pinto Neves.