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Artigo

Aljustrel—16 de dezembro de 1877. Sr. redactor

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Aljustrel · Beja · Messejana · Ourique · Portugal Correspondência · Igreja · Interpretacção incerta

Longe do bulicio entregue sómente ao sabor do trabalho, temos sido indifferentes ás questões pessoaes que de dia a dia, de parte a parte, se ventilam n’esta terra; por esta razão muitas vezes os contendores nos teem olhado de soslaio, porem continuamos na nossa habitual indifferença apesar de muitos que, se diziam nossos amigos, pretenderem envolver-nos n’esse asqueroso e immundo lodaçal da intriga — temo-nos conservado mudo e quedo, porem com o peito trasbordando d’indignação por ver que, ao passo que todas as povoações á porfia tratão nobremente de se engrandecerem, quando todos se esmerão por dotarem a sua terra d’este ou aquelle melhoramento, Aljustrel não lhe servindo de estimulo o caminhar incessante, a marcha progressiva das povoações circumvisinhas, retrocede: a administração municipal aqui é similhante ao fragil baixel que em dia de procella se deixa arrastar á mercê das vagas furiosas, prestes a ser despedaçado ou tragado pela voracidade do oceano. O indifferentismo com que o povo olha para as cousas publicas, o pouco uso que sabe fazer dos seus direitos, consentindo em deixar-se arrastar á urna por traficantes que, abusando da sua bôa fé, mercadejão com a sua consciencia, faz-nos chorar lagrimas de sangue por vermos que nem todos saboreão o fructo d’essa arvore gigantesca regada com o sangue de tantos martyres, e que custou a vida a tantos heroes; é a causa do nosso atrazo e quem sabe se... a perda da nossa autonomia. Os resultados parciaes e da urna publica, são a confirmação plena do que acima fartamente temos dito; umas auctoridades e o vigario de [ilegível] não conseguirão ainda que coadjuvados pelo chefe do districto, [ilegível] cavalheiros. Temos pois á testa do municipio cinco individuos, trez já teem tomado assento nas cadeiras camararias, o municipio pouco ou nada lhes deve; confiamos que d’esta vez não seguirão a mesma marcha; gemendo e chorando lhe pedimos volvam seus olhos misericordiosos para este valle de lagrimas e attendam ás imperiosas necessidades d’este concelho; esperamos tambem que merecerão attenção as ruas das Magrãs e Altos, e para melhor conhecerem as suas necessidades convidamol-os a passeiarem n’uma noite tempestuosa d’aquellas em que a escuridão não permitte que vejamos um palmo adiante. Antes de terminar e por satisfação ao publico permitta-me sr. redactor que diga algumas palavras relativamente a uma correspondencia anonyma a esta villa publicada no ultimo Jornal do Povo. Não discutiremos com o seu auctor por não termos o gosto de o conhecer, convidando-o a tirar a mascara, talvez que nós só com os actos publicos do correspondente tenhamos tambem boa materia para encher volumes. O primeiro periodo da correspondencia quasi que nos illudiu, pensávamos que o correspondente tratasse a farça nojenta com a devida imparcialidade, e não mentindo com o maior descaramento: custa-lhe que os seus cavalheiros de reconhecida independencia e vida illibada, esses respeitaveis caracteres descendentes de nobre stirpe, se vejão subjugados pelos valdevinos, homens sem brio e dignidade? Socegue porque os povos não estão tão depenados como o correspondente julga, o atraz de tempos tempos veem. O prestigio do papá não durará sempre. Taxais de calumniador o correspondente do Bejense, e vós o homem modelo o exemplar de virtudes, não vos diremos que trilhaes o mesmo caminho, avançaes a mais porque ouzes insultar aquelles que vos estenderam a mão e que talvez vos dispensassem alguns beneficios: qual dos procedimentos é o mais indigno? N’outra correspondencia anonyma tambem, porque os defensores dos cavalheiros de vida illibada teem a mania de não tirar a mascara e preciso desmascaral-os, somos alcunhados de valdevinos e não sei que mais, porém presentemente dão-nos muita importancia, offerecem-nos pontapés... tiramos terras... ovelhas... e até offerecemos dinheiro!!! Que notavel contradicção! E pretendeis desfigurar as scenas attribuindo-nos actos praticados pelos vossos, guardae a carapuça porque vos diz muito bem. De que lado está o suborno? quem foi que no dia da eleição na egreja tirou um forragial que Antonio Braz trazia de renda por este se negar a acceitar-lhe uma lista? quem deu calça e jaleco a um eleitor para lhe acceitar outra, quem foi a Messejana comprar votos; quem á mesa pretendeu trocar listas? Quem espalhou trigo e dinheiro? quem andava na egreja feito canteiro a distribuir listas e a chorar diante dos eleitores? Os vossos que respondam. Não vistes, esse bando de galopins que assaltavão os eleitores com mais interesse do que um bando de salteadores nas estradas? repito de que lado está o suborno? Não vos pergunto se violentamos algum eleitor porque quem mente tão impunemente não merece consideração. Em conclusão dirvos-hei que se o correspondente do Bejense ultrajou a honra de cidadãos respeitaveis, teem um meio muito facil de se desagravarem, os tribunaes, desejamol-o do coração porque detestamos a calumnia; em quanto o não fizerem a reputação d’esses cavalheiros continuará muito comprometida. Se bem me recordo no Campo d’Ourique tambem apparecerão alguns artigos stigmatizando os actos d’aquelles cavalheiros, talvez que esses artigos não sejão estranhos ao correspondente e quem sabe se teremos de publicar alguns trechos d’elles. O grupo governamental como o correspondente lhe chama começou a operar cincoenta a sessenta dias antes de nós, como podemos testemunhar e não oito ou dez dias antes da eleição como o correspondente diz. Mais uma vez faltou á verdade. A differença de votos na eleição foi de trinta e cinco votos e não de quarenta e tantos como o correspondente diz, podem limpar a mão á parede; o seu prestigio está reconhecido. Onde está a importancia de tão grandes homens que lutando com quatro ou cinco individuos que vós apontaes como a escoria da sociedade, tiverão de lançar mão dos meios mais indecorosos, não se poupando a toda a especie de humilhações? para que foram a Beja agarrar-se ás plantas de s. ex.ª banhando-as com lagrimas, para que os não desamparasse, fazendo com que elle faltasse á palavra que deu de se conservar neutral? Não nos occupamos mais da correspondencia, deixamos ao seu auctor os palavrões que põem em relevo o seu caracter insidioso. Muito temos que dizer, porem reservamo-nos para outra occasião se a isso formos impellidos. S. Junior.