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Alentejo · Lisboa · Portugal Interpretacção incerta · Relatório

Relatorio e contas da gerencia da Direcção da Associação de caridade de Vianna do Alemtejo no anno de 1877, 12.º da sua existencia.—Senhoras associadas e benfeitoras.—Eis-nos reunidos para solemnisarmos o 12.º anniversario da fundação da nossa associação de caridade. Se o accrescimo d’um anno mais á existencia de qualquer associação é motivo bastante para os seus membros sentirem satisfação intima, e expandirem em salutar alegria por tão fausto acontecimento,—quanto mais intima não deve ser a nossa satisfação, e mais expansiva é essa alegria, ao considerarmos nas lutas travadas n’este longo prazo de 12 annos, nas difficuldades vencidas, nos serviços obtidos, nas obras ideaes realisadas, nos beneficios feitos a tantas mães e creancinhas pobres? E sobretudo, ao recordarmo-nos que o anno de 1877, que se nos antolhava cheio de multiplicados embaraços de difficil solução, foi um d’aquelles em que a divina Providencia mais manifestou o seu poder demonstrando-nos que não espera debalde, quem n’ella deposita a sua confiança! Como sabeis, a reforma da partilha da herança do sr. commendador Francisco de Borja Freire havia-nos obrigado a restituir á sociedade das casas de asylo de infancia desvalida de Lisboa uma somma avultada em inscripções e dinheiro, que nos privou d’um rendimento annual de 133$500 reis; desfalque notavel para a nossa minguada receita. Obras urgentes, taes como, a collocação dos telhados sobre o terraço, da maior parte das casas do nosso edificio, o telheiro da varanda do norte, o assentamento de casas indispensáveis para o regular serviço do asylo d’órfãos, o ladrilho da varanda occidental, etc. tinham ficado suspensas em consequencia d’aquella restituição, que nos privou das quantias para isso destinadas. O rigoroso inverno de 1876 havia-nos causado destroços notaveis pela falta de telhados na maior parte das casas, e dava-nos sérios cuidados pela falta provavel d’esmolas, que anteviamos, para occorrer a tantas despezas extraordinarias, a ponto que haviamos requerido ao ex.mo conselho do districto para contrair um emprestimo, amortisavel em dez annos, para realisar as obras mais urgentes, no caso de não podermos obter as esmolas necessarias para ellas; mas este receio era motivo mais que sufficiente para desanimar; mas nunca chegámos a perder o animo, porque nos echosavam aos ouvidos aquellas palavras, que o bom Jesus dirigia aos pobres discípulos assustados pela tormenta, que ameaçava submergir a sua fragil barca:—Porque temeis, homens de pouca fé... Dissemos no relatorio de 1876, referindo-nos ás palavras da respeitavel fundadora da casa de refugio de Laval: Vamos fazendo o que pudermos, que o bom Deus fará o resto; nunca devemos ter tantas esperanças, como quando os recursos humanos parecem faltar-nos. Recursos e esmolas inesperados, e sobretudo o valioso subsidio concedido á nossa Associação pela Ex.ma Commissaõ dos soccorros ás victimas dos desastres do ultimo inverno de 1876, presidida por S. Magestade a sr.ª Rainha D. Maria Pia, nossa antiga benfeitora, vieram livrar-nos das difficuldades com que lutavamos, deixando mais desafogado o nosso futuro, e evitando-nos os encargos, a que o projectado emprestimo nos ia obrigar. (Continua).