Moura
Mais um nome illustre acaba de riscar-se do livro da vida! Do ex.mo sr. João d’Almeida Grave já não existe senão a saudosa memoria das suas virtudes. A inexoravel morte que não respeita vida alguma, acaba de roubar para sempre esse venerando ancião, que a todos consolava com a suave influencia da sua bondade. Sua ex.ª, que no dia oito do corrente estivera á noute com os seus amigos, como costumava, e que parecia gosar saude, sentiu-se bastante afflicto ás duas horas da madrugada do dia nove; e nesse mesmo dia ás 11 da noute foi provocado por um vomito de sangue, que apezar dos esforços da sciencia e do mais desvelado cuidado dos dois habeis medicos assistentes, não foi possivel estancal-o; pelo que ás quatro horas e um quarto da madrugada de hoje, o venerando ancião succumbiu, entregando resignadamente o espirito nas mãos do Creador! Chora-o n’este momento a sua ex.ma familia, que tinha n’elle mais do que um pae desvelado e caritativo; choram-no os seus innumeros amigos, que acabam de perder um amigo sincero e verdadeiro, que sempre se achava prompto a obsequiar a todos; chora-o a sociedade, que perdeu um cidadão illustre e prestante; choram-no os pobres: uns a quem elle dava o sustento quotidiano; outros a quem tinha estabelecido mezadas, e outros finalmente que lhe imploravam o obolo da caridade, e a quem elle estendia a sua mão caritativa e benefazeja. Chora até—se soffre dizer-se—a religião; pois que acaba de perder um dos seus mais solicitos e dignos filhos. Seja-me, pois, licito pagar aqui o tributo da minha saudade e gratidão, desfolhar um goivo sobre a campa do meu nunca assaz chorado amigo, e desabafar a dôr que ora me opprime o coração por tão irremediavel perda! Morte cruel! Não te glories de teres assim inesperadamente ceifado tão preciosa vida! O teu imperio tyrannico não se estende alem do tumulo; porque alem deste só ha a eternidade! Aquelle que tu iras roubado ainda vive, e já está fóra do alcance da tua foice terrivel! Vive e viverá eternamente na presença de Deus, onde o conduziram as suas virtudes. Descança pois, em paz, illustre finado e presado amigo; e que a terra te seja leve. Requiescat in pace. Moura, 1.º de fevereiro de 1879.