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As folhas de Paris occupam-se ainda do luctuoso acontecimento que tivera lugar na Zulandia, e as folhas republicanas bem assim e grande numero das monarchicas são concordes em dizer que a morte do príncipe Napoleão desmantelou o partido bonapartista. A morte do príncipe é assim contada: No dia 1 de junho o principe imperial seguido de alguns officiaes sahio do acampamento do general Worde para fazer um reconhecimento. Junto do rio Jotozasi tiveram de se apearem. Os zulus achavam-se escondidos e vieram de rastos a commetter os inimigos matando dois officiaes e ferindo o principe que tentou fugir; os zulus deram-lhe uma descarga mas como ficasse illeso, atacaram-no com azagaias sendo desesete vezes ferido; uma das azagaias ferio-o no olho esquerdo. Mais tarde foi o seu cadaver encontrado. O principe estava nu, encontrando-se-lhe um escapulário com a imagem da Virgem. O principe antes de embarcar para o Cabo fizera testamento que está agora em poder do sr. Rouher, e no qual desherda seu tio, o principe Napoleão, e institue herdeiro o filho d’aquelle, Victor Jeronymo Frederico, que apenas conta dezesete annos. O governo da republica não considera o principe nem sua familia offensivos e por isso não o desterrará. As folhas bonapartistas tarjaram de luto e nos necrologios deixaram perceber por uma forma clara a commoção de que o partido se acha possuído. O partido bonapartista, que geralmente é considerado em dissolução, prepara solemnes exequias por alma d’aquelle em que depositava todas as suas esperanças, e uma folha de Londres, affeiçoada á causa imperial lembra que se levante um monumento para perpetuar a memória do principe que fôra combater com altivez e coragem em busca de novos louros. Entre os monarchicos na Grã-Bretanha a sensação que a noticia produziu foi igualmente extrema. As folhas escreveram sentidos necrologios o que parece demonstrar que entre elles e os bonapartistas algumas combinações haveria relativas ás tentativas para a restauração do imperio. Conforme dizemos acima é grande e profunda a sensação entre os bonapartistas e por isso não podemos ainda expôr com inteira verdade qual a attitude que tomarão. Uma folha que tomamos presente, o Tempo, é da opinião que o partido está em dissolução e que produzirá uma republica moderada que dará a paz á França. Uma outra, o Pays, expõe que alguns dos mais ferrenhos partidários já reconheceram o principe Victor, apesar de viver ainda seu pae. Em todo o caso o que já se observa é o desaccordo que lavra no seio do partido, desaccordo que o dividirá e aniquilará. Sobre a situação da familia de Napoleão publica a France as seguintes informações: Napoleão I tinha quatro irmãos: José, Luiz, Luciano e Jeronymo, sendo os primeiros maiores que elle, e os segundos menores. Quando constituiu a família imperial, Luciano foi excluído pela sua resistência ás vontades do novo cezar, e foi estabelecida a successão por ordem de primogenitura entre José, Luiz, Jeronymo e seus descendentes. A situação não se modificou quando Napoleão 3.º subiu ao throno. Os herdeiros de Luciano são: Luciano Bonaparte, antigo senador imperial que vive em Londres, dedicando-se ao estudo das sciencias; Pedro Bonaparte, que matou Victor Noir; Carlos Bonaparte, antigo chefe de batalhão, presidente do conselho geral da Córsega, actualmente residente em Roma; existem mais quatro princezas, casadas com individuos da aristocracia italiana. Não tendo José deixado filhos e extincto o ramo de Luiz por morte do joven príncipe, a dynastia dos Napoleões está representada pelo principe Jeronymo Napoleão, casado com a princeza Clotilde de Saboia, da qual tem dois filhos, Victor e Luiz. E’ sabido por todos que o principe Jeronymo acceitou a Republica com enthusiasmo, e foi eleito deputado pela Córsega contra o sr. Rouher, tendo votado com os 363. Estas informações provam claramente que o unico pretendente á corôa imperial era aquelle que sucumbiu na Zulandia, e que, se ha descendentes do imperador, não existe comtudo nenhum Bonaparte com a força e coragem para erguer de novo o throno que foi derrocado e condemnado pela gloriosa revolução de 1870. O desaccordo e a confusão no seio do partido bonapartista é prova de sobejo que está irremediavelmente perdida a causa imperial. As folhas conservadoras de Madrid também dispensaram sentidos necrologios ao acontecimento que frustrou todas as machinações contra o governo republicano legalmente instituído em França. A Epoca espalha o boato, que se vae accentuando, que é provável que a ex-imperatriz regresse a Hespanha para a companhia de sua mãe e de seus parentes mais proximos. Aguardam-se sobre o assumpto curiosos e importantes successos. Um dos factos que está preoccupando ainda a diplomacia, a questão do Egypto, promete conservar-se ainda por mais algum tempo na tela da discussão. O vice-roi para o pagamento da divida aos estrangeiros offereceu empenhar todos os seus bens; mas a Áustria, Allemanha e Inglaterra exigiram em primeiro logar a destituição do vice-roi, como satisfação aos aggravos feitos ás nações ali acreditadas, e que o pagamento a estrangeiros e a nacionaes seja feito sem excepção. O khedive recusou abdicar e declarou aos cônsules francez e inglês que se dirigissem á Porta, o que fizeram. Um conselho especial do gabinete se reuniu em Constantinopla para examinar as exigências das potências, declarando o sultão que não acceitava a reclamação das potencias concernente a abdicação. Os ministros, porém, á excepção de Osman-pachá, foram concordes na acceitação da reclamação com o fim de evitarem novas complicações que poderiam ser altamente desastrosas para os bons interesses da Porta. A diplomacia conseguiu porém triumphar. O khedive abdicou. Succedeu-lhe o principe Mohamed-Tewfik. Sem embargo o governo turco está levando a cabo grandes preparativos de guerra, e, segundo um telegramma que o Standart recebeu da Junina, a Volo tem chegado numerosos reforços e na Albânia reúnem-se grandes bandos de bachi-bouzouks. Este facto põe em duvida a estabilidade da paz no oriente. Afora estes assumptos não sabemos d’outros de maxima importancia a não ser dos que dizem respeito ao movimento socialista na França e na Gran-Bretanha onde as greves se succedem umas após outras. Em Marselha os socialistas trabalham com toda a actividade para a reeleição de Augusto Blanqui e teem toda a esperança de obterem nova e assignalada victoria sobre os partidos conservadores que se apoiam no ultramontanismo. A greve dos mineiros em Durham, Inglaterra, terminou acceitando os grevistas a diminuição de 6 1/2 e 8 3/4 por cento sobre os seus salarios. Declararam porem que se no fim de quinze dias não lhes fosse concedido um augmento de 20 0/0 sobre os salarios não voltariam ao trabalho. Esta terminante declaração fez com que parte dos proprietários das minas com receio de que a greve seja outra vez declarada não recomeçassem os trabalhos. O movimento não enfraquece nem diminue conforme os conservadores pretendem fazer acreditar antes pelo contrario accentua-se e vae tomando proporções agigantadas. O mesmo se observa na Allemanha e na Rússia.