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CARTA DO PORTO

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Porto · Vila Nova · América · Espanha · Europa · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

2 de outubro de 1879. Charo redactor. — No ultimo numero do Bejense, compulsando a revista «Acontecimentos na Europa» deparei com um protesto em que o seu auctor, na qualidade de filho da peninsula, se revolta contra a idéa da unificação de Hespanha e Portugal debaixo da dominação monarchica e diz que a Portugal só pode convir a republica federal iberica: ao acabar de lêr se estivesse presente o auctor com certeza lhe teria dado um aperto de mão, effectivamente é assim e seria absurda a união, debaixo d’um sceptro despótico. As nações da Europa só poderão ser felizes quando á imitação dos Estados Unidos da America houverem Estados Unidos Europeus e quando os cargos governativos forem occupados por homens que com afan e desinteressadamente cuidem da libertação politica e social dos povos. A republica federal é muito melhor que a unitaria; eu entendo assim apezar de estar filiado n’uma aggrupação politica que differe muito dos codigos republicanos. Com respeito ao escandalo á porta da casa do centro regenerador tenho a dizer que houve tumultos e imprudencias d’ambas as partes, ainda assim os progressistas tiveram a maior culpa porque vieram procurar os regeneradores quando elles sabiam de exercer um direito constitucional — o de reunião; — o antigo serralheiro e actual caudilho progressista Sentieiro foi preso por ser o cabeça de motim (segundo dizem). Foi uma brincadeira indigna de gente que se apregoa com moralidade e delicadeza. Publicou-se um novo jornal n’esta cidade: é Litterario e denomina-se «O Melro»; cada numero tem 16 paginas de impressão. Appareceu tambem um periódico destinado aos theatros; intitula-se «O Entre-Acto». Por Villa Nova de Gaia propõe o centro regenerador o ex-administrador d’aquelle concelho, Castro Portugal, e os progressistas, o Barão das Devesas; quasi que se pode assegurar a victoria para o governamental porque o candidato opposicionista tem é verdade muitas sympathias mas é maior o numero de inimigos e por isso de antipathias. O partido regenerador tropeça com muitas difficuldades na escolha de candidatos pelos dous circulos que faltam; faz-nos crer que lhe falta o animo! No dia 28 de setembro pelas 4 horas da tarde reuniu-se um crescido numero de eleitores do circulo de Cedofeita, no Salão do Bom Successo, da mesma freguezia, a convite do centro eleitoral operario socialista; a mesa esteve assim composta: João Maria Pinna, presidente; José da Silva Lino, e M. Cruz, secretarios. A reunião correu na melhor ordem e terminou pelas 6 e 1/2 da tarde. Os operarios de Castello Branco constituiram uma agrupação socialista e apresentam já candidato nas proximas eleições; não sei ainda quem é, logo que saiba participarei. De todas as partes chegam noticias de agitações em favor do socialismo, da idéa nova que tam calumniada tem sido por aquelles que não a comprehendem; os operarios vão reconhecendo que vivem em escravidão ignominiosa e pretendem com justissimo motivo, libertar-se; animo que a lucta é sagrada! Quando esta correspondência fôr publicada estará proximo o momento supremo, em que os portuguezes devem escolher os seus representantes no seio do parlamento; oxalá que a escolha seja feita livremente, sem a imposição tyrannica da auctoridade e que recaia em individuos que olhem pelo verdadeiro prisma as miserias do proletariado. Não será porem assim e a julgar pela montagem da machina teremos um perfeito conclave nas salas do palacio de S. Bento, tal é o grande numero de ecclesiasticos que o actual governo propõe; candidatos reaccionarios appoiados por um ministério que se diz liberal mas que o não é em vista disto. Os eleitores que se não deixem corromper e que votem obedecendo aos dictames da consciencia que em taes momentos precisa ser bem consultada. A’ urna livremente, com consciencia do acto de responsabilidade que se vae praticar. Bessa Carvalho.