Scenas de desespero
A esposa apparece a receber as visitas do marido em trajes transparentemente caseiros. Elle, que é um Othello, apparece de subito. — Senhora, para que paz hoje o vestido de cambraia, sem mais corpete, nem mais saias? Isto é honesto? — Filho, o calor é inimigo da honestidade. — Ó indignidade! Ó depravação! — Não te zangues menino, porque aqueces e como eu estou a arder temos por certo grande incêndio. No interior da outra casa: — João, trouxeste o gelo? — Esqueceu-se-me, meu senhor. — Ó barbaro! Estás despedido. — Mas, senhor... — Rua. O calor é inimigo da moderação. Uma filha desesperada: — Quero ir para Cintra, que abafo aqui. — Os tempos estão bicudos, filha; este anno não póde ser. — Ao menos para Belem, meu pae. Quero tomar banhos; preciso refrescar-me. — Não ha dinheiro, filha. — Ah! sim! Querem que eu morra asphyxiada? Pois fujo de casa. — Menina, acomode-se. Obedeça á voz de seu pae. — Não posso. Estou resolvida. O calor é inimigo da obediência. Uma senhora gorda. — Acudam-me, senão deito-me da janella abaixo. — Senhora, que desatino é esse? — Estou a escaldar. Não posso supportar mais esta temperatura. Vou suicidar-me. — Porque, menina? Está doida? — Vou matar-me, que o calor é inimigo da vida. Um medico visitando um doente: — Então que loucura é esta? N’um banho de agua fria! — Doutor, já daqui não saio. Ao menos quero morrer consolado. Um morador no Chiado: — Srs. vereadores, agua, agua, senão morro. Um camarista que passa: — A agua é inimiga do calor, e a camara é inimiga da agua.