CARTA DO PORTO
Dezembro de 1879. Cidadão redactor: Que vos hei-de dizer do Porto? É esta a pergunta que repetidas vezes tenho feito a mim mesmo e ainda não pude encontrar resposta formal. A cidade invicta não tem dado assumpto algum de grande importancia, no entanto para não faltar á missão a que me impuz sempre direi alguma cousa. Acha-se concluído o 1.º volume da interessante e util publicação que com o titulo de Jornal de Viagens vê a luz publica n’esta terra; este volume compõe-se dos n.ºs 1 até 27, que comprehendem os mezes de junho, julho, agosto, setembro, outubro e novembro; o n.º correspondente a domingo 30 de novembro, por ser o ultimo do primeiro semestre, vem acompanhado d’uma capa em broxura e d’um indice das illustrações e do texto; a primeira gravura que se intitula Historia de Serpentes, e a ultima intitulada Um sutty na India, são riquissimas. Esta publicação, a mais barata da peninsula, tem sido recebida com grande enthusiasmo; a empreza, desejando corresponder ao favor publico, offerece gratuitamente aos assignantes que pagarem um mez adiantado ou que forem de novo assignantes a Venus Negra, extenso romance geographico, de Belot, editado pela mesma firma, uma gravura grande para quadro, sobre o titulo: Longe da patria. Que os ventos da fortuna corram propicios para a empreza é o nosso mais ardente desejo. Os nossos amigos Pedro do Valle e Rodrigues de Leire, modestos artistas d’esta cidade, vão publicar um jornal quinzenal intitulado Chronica Litteraria; segundo um prospecto que temos sobre a nossa banca, serão colaboradores do mencionado jornal os srs. Xavier de Carvalho, Marcos Guedes, Theophilo Braga, Bruno, e outros; além d’isso será tambem collaborado por Angelina Vidal, a sublime pensadora da Aurora da Revolução. Ao novo campeão das fileiras jornalisticas, desejamos larga e prospera vida, se bem que este meu desejo desagrade a certos zoilos maledicentes que por aqui abundam e que, criticando de tudo e de todos, não se lembram de que são os que merecem mais critica, quer na vida publica, quer na particular. Pobres lapides! Espera-se anciosamente a apparição do Paris-Murcia, o jornal de philantrhropia, publicado pela imprensa franceza, em favor dos inundados de Hespanha; já que fallamos da Hespanha achamos bom que todas as pessoas façam confronto entre a miseria de Murcia, Levante e Almeria, e os esplendidos festejos do casamento real; o povo geme na miseria e vegeta nas ruas, mas em compensação o rei gosa a opulencia e vive nos palacios; o povo que sustenta o rei, morre de fome, mas que importa, o rei diverte-se, ri-se das lamentações do povo; ah, reis, reis, senhores das vossas festas, de subito que vento as apagará? Ao terminar esta carta não podemos calar-nos com alguns commentarios ao procedimento do governo progressista, abatendo ao miseravel salario dos operarios das obras publicas. Porque não reduz o governo a lista civil? Porque deu o governo tanto dinheiro, quando tiveram logar, as eleições, para concertos de egrejas? Não seria melhor que se economisasse esse dinheiro, do que roubar assim descaradamente os desventurados trabalhadores? O governo progressista está ha pouco tempo no poder, mas nem em 100 annos que lá esteja póde desfazer a má impressão causada pelas suas medidas, até esta data. Bessa Carvalho.