Acontecimentos na Europa
Damos hoje n’esta secção, e porque preenche os fins para que a inauguramos, parte do excellente artigo que, acerca da politica europeia, escreveu o sr. Francis Charmes, eminente publicista, do Journal des Debats. «Desde a guerra de 1870 até os ultimos annos, a alliança dos tres imperios do Norte, a Allemanha, a Austria e a Russia, continha todo o mundo em respeito e como que lhe proibia toda a veleidade de revolucções ou de ambições particulares. A Russia, a Allemanha e a Austria reunidas pareciam senhoras absolutas, que tudo podiam fazer, impedindo que os outros alguma cousa fizessem. E como nós estavamos resolutos a não fazer cousa alguma, a alliança dos tres imperios nem de leve nos assustou, e acceitamos voluntariamente essa formidavel constellação diplomatica que nos dava,—a garantia da paz. Nem sequer chegamos a pôr em duvida que, se os tres imperios alliados impunham á Europa a inacção obrigatoria, a mesma necessidade não pesava igualmente sobre elles. Os seus interesses eram realmente tão diversos em muitos assumptos, e alguns tão oppostos, que uma tentativa ambiciosa da parte de um ou de outro devia, aos nossos olhos, comprometter o equilibrio da alliança e muito em breve rompel-a. Como acreditar, por muito ligeira que seja a recordação do passado, que a Austria podesse vêr placidamente os exercitos russos transpor os Balkans, improvisar a grande Bulgaria ou mesmo a Roumelia Oriental, e dictar as suas vontades á Porta sobre as margens do Egeu? Se alguma decepção tivemos, foi que o desacordo não rebentasse mais cedo. Pois que! os russos estavam á vista de Santa Sophia, organisavam já toda a peninsula balkanica e a Austria não bulia nem mugia? A Austria nem ao menos enviava um corpo de observação para a Transylvania? Esta immobilidade não era natural. A alliança dos tres imperios, qualquer que fosse o seu fim, não podia produzir tão miraculoso desinteresse; e desde logo era facil comprehender que, por detraz da alliança dos tres, havia a alliança dos dois. O governo austro-hungaro deixava benevolentemente perceber a cousa. No momento em que era mais vivamente atacado, o conde Andrassy dizia, sorrindo, que não decorreriam dois annos que elle não fosse considerado o homem mais popular do imperio. Esta tranquillidade, esta confiança só se explicam pela certeza de encontrar na mão do chanceller allemão o apoio e o concurso de que ia haver necessidade. A Russia não tinha previsto estas consequencias. Quando, com rara ligeireza, se lançou na guerra do Oriente, acreditava complacentemente que os seus desejos eram, e seriam, a lei dos seus alliados. Sobretudo, não duvidava da benevolencia allemã. A amizade pessoal dos dois imperadores e os assignalados serviços que Alexandre prestara a Guilherme, não eram a este respeito absoluto senhor? A Russia pretendia ter direito a uma compensação pelo augmento de territorios com que o seu visinho se dotou. Não reflectia que a Austria tinha pouco mais ou menos direito igual, e que a diplomacia allemã faria passar o interesse de equilibrio de todos antes do seu reconhecimento por cada um. Era, porém, o que devia de acontecer. Em torno da mesa do Congresso de Berlim desvaneceram-se os sonhos dourados de San-Stefano. A Russia achou-se só em frente da Europa, que exigia a renuncia das suas conquistas. Deixaram-lhe a Bessarabia; em troca, a Austria lançou mão sobre a Herzegovina e a Bosnia, duas provincias que eram uma ameaça contra a sua influencia na Europa; e a Inglaterra apossou-se de Chypre, que era uma ameaça, mais remota talvez, mas não menos directa, contra as suas operações na Asia central. Só a Russia não sahiu da ultima guerra coberta de gloria militar, muito menos de gloria diplomatica, mas ainda de exaustão para muitos annos. N’este estado, que é complicado pelos perigos d’uma crise interna, a Russia tem necessidade de paz, mais que outra nação qualquer. A guerra precipitaria por ella, na Europa, catastrophes que o tempo e uma politica avisada podem conjurar. Fica a Asia! Na Asia central a guerra é continua, sempre trabalhosa, e será por largos tempos incerta nos seus resultados. Não cremos que atravez d’esses immensos territorios, cuja extensão não é bem medida pelos pessimistas, o encontro de inglezes e russos enseje tão proximo e commum se imagina. Ahi ainda, os russos praticaram uma falta quando quizeram installar uma representação militar e diplomatica em Cabul; os inglezes aproveitaram-se d’ella para rectificar as fronteiras do seu imperio das Indias. E tocou-lhes a vez de experimentarem quanto era difficil de estabelecer cousa duravel nessas regiões. Attribuem-se a lord Beaconsfield vastos projectos sobre o Afghanistan. Por muito viva e violenta que seja n’este instante a opinião ingleza contra os russos, a campanha do Afghanistan foi impopularissima na Inglaterra, causou ahi grande surpreza e inquietação, para que o governo, depois de ter alcançado o seu fim, queira ultrapassal-o. Se é verdade, como por vezes se tem dito, que o Afghanistan, aggregação inconsistente de populações heterogeneas, se desloque em muitos fragmentos, a Inglaterra deixará que essa desmembração se opere sem a sua intervenção. Toda a politica contraria seria imprudencia; e não nos resignamos a acreditar que lord Beaconsfield assuma tão grande responsabilidade em vespera de eleições. E’ preciso não esquecer, com effeito, que em Inglaterra as eleições estão proximas, e que na Allemanha já começou a discussão dos importantes projectos de lei militares.»