Ferreira 25 de agosto. Fomos á corrida de touros em Aljustrel no dia 22, que esteve melhor do que era de esperar d'uma terra como é aquella villa, onde parece que existe o genio do mal em todas as suas ramificações! Bom gado, bom intelligente, capinhas regulares, excellente cavalleiro, o nosso patricio e amigo Manoel Baptista, fidas em logar de moços de forcado, também nossos patricios, emfim, tudo bom na corrida e de que damos os parabéns aos festeiros pelos esforços que empregaram para satisfazer aos desejos do publico. Domingo ha outra tourada e permitta Deus que ella venha com tanta fortuna como a de que tratamos. E já que vimos á imprensa bom será lembrar ao sr. Villa Lobos, administrador de Aljustrel, o que parece ter esquecido s. s.ª, se é que alguma vez aprendeu elementos de civilidade e cortezia. Quando o cavalleiro entrou na praça e a musica rompeu o hymno de D. Luiz, o sr. Villa Lobos devia ter tirado o chapéu e pôr-se de pé; é costume e sobre tudo delicadeza fazel-o; lá tinha s. s.ª a seu lado o ex.mo sr. Sampaio, administrador d'este concelho, e o sr. Villa Lobos não lhe seguiu o exemplo. Provavelmente os seus amigos regeneradores e com especialidade o seu escrivão, que segundo nos consta é o motor de todos os actos de s. s.ª, não lhe deram licença. Fez bem, e pedimos-lhe que continue. Ainda outra cousa, sr. Villa Lobos: olhe que o camarote da auctoridade é só para ella, nem mesmo a sua familia ali deve ter entrada e por isso muito menos uma alluvião de gente que em caso urgente devia necessariamente impedir que a auctoridade fosse senhora de si. No camarote que lhe está destinado, vistas as circumstancias da praça, só deve estar v. s.ª, o seu escrivão, que não foi lá por a festa ser feita por progressistas, o intelligente, o facultativo e um official de diligencias; se quizer ter ao pé de si os regeneradores, requisite a praça toda para seu camarote, mas esteja um momento só na posição que o seu dever official lhe impõe. Ainda outra observação, sr. administrador: eram 2 horas da noute, representava-se um espectaculo degradante, vil e infame, como eram os personagens que nelle tomavam parte, nas ruas publicas da séde do concelho. Depois do fogo de vistas, na noute de domingo para a segunda feira, uma cafila de selvagens, aproveitando a embriaguez d'um desgraçado, andaram com elle aos empurrões pelas ruas da villa, obrigando-o a cantar, dançar e a tudo de quanto elles são capazes, chegando a despir em plena rua o misero, que não teve um momento de lucidez para repellir de junto de si essa villissima canalha, que sem consciencia o obrigava a representar um papel de que hoje hade corar de vergonha e chorar a sua desgraça. Pois isto é um facto, isto vimo-lo nós, isto sabe-o toda a gente, sabe-o até o sr. administrador, mas finge ignoral-o, por na sucia andar também o filho do seu querido escrivão. Se fossem progressistas os auctores d'esta miserável infamia, a policia cahiria logo sobre elles, e s. s.ª, o sr. administrador, levantaria autos e tudo o mais que a sua fertil imaginação lhe suggerisse. Que desgraça de concelho! No tempo do famigerado Figueiredo, sabieis vós, progressistas de Aljustrel, que tinheis de luctar com um déspota e com um doido, estaveis prevenidos; agora a vossa situação é peior, tendes de luctar com uma auctoridade hypocrita, aduladora, e dominada pelo nosso maior inimigo, o escrivão da administração. Oiça, sr. Villa Lobos, oiça e dê ás nossas palavras o peso que quizer, mas repare que a dôr que nos guia a pena, por vermos os nossos amigos e correligionários massacrados e vilipendiados por aquelles que tinham obrigação moral e politica de os pôr acoberto d'isso, porque elles estão passando. Na occasião do fogo vimos nós um individuo, que não conhecemos, junto do filho do seu escrivão, dizendo que os laricas que n'aquella noute escapassem ao seu bordão não fugiriam á mira da sua espingarda. Esta provocação, que podia ter funestas consequencias, foi feita nas barbas da auctoridade; ella estava próxima, porque bem a vimos, mas como ali estava o filho do regulo Teixeira, passou impune. Ainda outra, e terminemos por hoje: quando quizer fazer elogios ao seu escrivão não os faça á vista d'elle; isso traz inconvenientes que lhe podem ser funestos, sr. Villa Lobos; abrace-o, beije-o, proste-se muito embora a seus pés, mas guarde as conveniencias necessarias, se não deseja morrer afogado no mar do ridiculo, onde está desde que elle lhe metteu os pés nas algibeiras. Aos nossos amigos e correligionários pedimos-lhes licença para lhes dar um conselho. Ás provocações dos gatunos respondam com o desprezo, não se queixem d'ellas ao seu administrador para não cahirem no desagrado de s. s.ª; peguem na pena e representem para os poderes competentes contra ella, afim de lh'o tirarem d'ahi, onde é preciso uma auctoridade com vida e com juizo para poder pôr a caminho direito esse infeliz concelho, bem digno de melhor sorte. Perante a necessidade da boa administração não ha considerações, nem o municipio de Aljustrel é asylo. Domingo 29 lá vamos e perguntaremos se o sr. Villa Lobos, durante esta semana em que estamos separados, deu largas ao seu genio orgulhoso e soberbo para os desgraçados progressistas, que teem a desgraça de pagarem 365$000 rs. a um administrador que não teem, e que elle e o seu escrivão opprimem e aviltam. Desgraçados amigos e correligionários. Um progressista.
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