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Promettemos em a nossa pretérita revista fallar da segunda applicação dos decretos de 29 de março e, cumprindo a nossa palavra, vamos tratar d’esta questão que em França continua a trazer os espiritos bastante agitados. O dia primeiro d’este mez, como era sabido, estava designado para a segunda applicação dos decretos de 29 de março, em França. Em Paris eram tres os estabelecimentos ameaçados: a escola de Santa Genoveva, rua de Lhomond; o antigo collegio Poilloux, rua de Vaugirard, e a escola de S. Ignacio, rua de Madrid. No estabelecimento da rua Vaugirard, os padres jesuitas haviam-se retirado voluntariamente, trespassando o estabelecimento a uma sociedade civil, de que é presidente o sr. Salançon. Ficára apenas no edificio monsenhor de Forges, seu actual director. Na rua Lhomond, egual transformação no estabelecimento. O novo director que já havia substituido o padre Du Lac é o reverendo Darblade, antigo capellão do collegio Rolin. A escola de S. Ignacio da rua de Madrid cessou tambem de pertencer aos jesuitas, passando a ser propriedade de uma sociedade inteiramente civil, sendo presidente do seu conselho de administração o sr. Riant e director o sr. Chevirot. Á uma hora da tarde apresentaram-se os commissarios de policia nos estabelecimentos dos jesuitas e deram-se por satisfeitos com a partida destes, limitando-se a verificar o facto. Nos demais pontos da França passaram-se as cousas da mesma maneira, excepto em Poitiers, onde os jesuitas se negaram a abrir as portas das suas casas ao commissario central, acompanhado de gendarmes, forçando-se as portas com o emprego de operarios chamados para esse fim. Quando o commissario penetrou no interior do edificio, achou-se em presença de seis jesuitas da casa. Os outros tres foram convidados a abandonar immediatamente o estabelecimento. Deu isto logar a que algumas pessoas rompessem em vivas aos jesuitas, gritando: abaixo os decretos! gritos a que se respondeu com outros de viva a republica! mas não houve desordem. Não deixa de ser para estranhar que, com a admiravel disciplina que reina entre os jesuitas, os das escolas de Poitiers se separassem da norma combinada por todos os outros estabelecimentos de França. Está sendo objecto de muitos commentarios e de viva polemica na imprensa franceza a declaração submettida á assignatura das associações religiosas não legalisadas, e que estas se propõem a apresentar ao governo, expondo as razões por que não se julgam no caso de solicitar a auctorisação a que se referem os decretos de 29 de março. O documento é importantissimo e sentimos immensamente que a absoluta falta de espaço nos inhiba de o apresentar aqui. Segundo L’Univers e outras folhas da colligação reaccionaria entre o governo e o Vaticano existe alguma combinação para tal fim, posto que La République Française e outros orgãos não menos importantes da maioria combatam energicamente a affirmativa dos reaccionarios. Esta questão, apesar de largamente discutida, tem comtudo pelo interesse que offerece de ser acompanhada em todas as suas phases. Diz-se geralmente que o governo resolverá conceder ás congregações não auctorisadas um novo praso até á abertura do parlamento. Nos primeiros dias de novembro apresentar-se-ha á camara dos deputados um projecto de lei para ser discutido com urgencia; se o projecto fôr adiado ou rejeitado, o governo usará dos decretos de 29 de março, executando-os severamente. Se isto assim se realisar será então muito provavel a demissão do sr. Freycinet. Num proximo conselho de ministros se tratará d’esta gravissima questão e se discutirá o projecto de lei sobre associações, e de modificações a introduzir na lei de 1850, sobre o ensino. Já que fallamos dos successos em França diremos que um novo incidente surgiu ha pouco entre a Italia e a gloriosa republica franceza. Quasi todos os jornaes attribuiram a repentina sahida de Paris do general Cialdini, embaixador do rei Humberto, em consequencia do conflicto tunesino; a causa, porém, não é esta. O motivo da viagem e das largas conferencias do general com o sr. Cairoli, presidente do conselho de ministros, consiste no seguinte: a abbadia de Haute-Combe, onde está a sepultura da antiga dynastia de Saboya e dos reis do Piemonte, está situada cerca de dez kilometros de Chambery, capital do departamento da Alta Saboya, um dos que foram cedidos á França em 1859. Em virtude dos decretos de 29 de março ultimo, os monges da abbadia tinham de sahir, e este facto encheu de desgosto a familia reinante na Italia. Ás observações que o general Cialdini apresentou, o sr. de Freycinet, presidente do conselho de ministros de França, limitou-se a responder que era necessario dar cumprimento ás leis. Disse-se que a resposta do general foi uma nota energica, e sahiu para Roma afim de conferenciar com o seu governo. O incidente considera-se, porém, terminado, e diz-se que os dois governos conseguiram chegar a um accordo, ficando de pé as resoluções do gabinete francez. Na Italia produziu a mais profunda sensação a victoria que a França alcançou na lucta em que ambas as nações andavam empenhadas ha muito tempo, em consequencia dos trabalhos diplomaticos, mercantis e industriaes, para influir e predominar na regencia de Tunis. L’Italie, diario francez que se publica em Roma, responde indignado á Riforma, n’estes termos: «A Riforma, que tomou por sua conta a conquista de Tunis e a expulsão dos francezes, denunciava hontem o facto de que a França havia tomado posse de uma provincia inteira de Tunis, e demonstrava que por este modo aquella regencia seria dentro em pouco um territorio francez. A quem incumbe a responsabilidade do que está succedendo ao commercio e ao banco italiano? Um dia o general Roredine, ainda ha pouco ministro do sultão, necessita de dinheiro e trata de levantar um emprestimo. E acha uns marselhezes que lhe facilitam a somma que precisa. Chega o praso de vencimento e não paga,—o que acontece todos os dias,—e os francezes tomam posse da propriedade hypothecada, que consistia em 800:000 hectares de terreno. A conclusão de tudo isto é que a questão tunesina entrou hoje n’um terreno exclusivamente commercial e economico. Aos nossos industriaes e banqueiros é que pertence obrar. E a influencia será do mais activo, do mais arrojado e do mais intelligente.» A Gazzetta di Torino tambem publica um artigo tratando d’esta questão. É escripto pelo sr. Meren, um francez, jornalista distincto. Nosso compatriota,—escreve o Courrier du Soir,—diz entre outras cousas: «A França adoptou para as colonias uma politica de exagerado egoismo, que provoca e continuará provocando a miudo conflictos internacionaes. A Italia tem uma diplomacia especial, pouco habil; porque em vez de tratar de attenuar ou de regularisar as consequencias de uma má intelligencia, trata, ao contrario, de as aggravar, e está sempre disposta a levar as cousas ao extremo.» O sr. Meren conclue dizendo: «Bom seria que os governos de França e de Italia dirigissem as suas vistas para o Norte, aonde os nossos inimigos communs, os nossos inimigos, se abraçam felizes perante as nossas discussões. A Austria é a inimiga da Italia, porque esta ultima lhe foi buscar as suas provincias, que receia perder ainda hoje. A Allemanha porque, olhando para o Rheno, deve consolidar as suas ultimas conquistas. Apesar de Sadowa, a Austria e a Allemanha estão alliadas e, como aliadas, esquecem os seus odios. É uma loucura dividir-se, separar-se perante tal alliança por uma mesquinha questão de influencia colonial, duas irmãs como são a França e a Italia e que, como taes, devem permanecer perfeitamente unidas.» A Gazzetta di Torino aspira com as suas patriotas palavras a armar ao effeito; a politica seguida pelo gabinete francez está porém muito acima de taes manifestações. As folhas de Londres occupam-se ainda da nova phase que tomou a lucta no Afghanistan com a derrota dos afghans. As folhas que lemos presentes trazem desenvolvidos pormenores. Na viagem do czar a Livadia foram descobertas na linha ferrea tres minas carregadas de dynamite e destinadas a fazer ir pelo ar o comboio imperial. Falla-se agora que o imperador se acha muito doente e que se cuida na sua abdicação. As noticias começam de novo a offerecer o maximo interesse. Mudando porém d’assumpto, somos obrigados a fallar ainda dos assumptos da politica interna de França, assim da seria impressão produzida em Berlim pelo discurso que mr. Gambetta pronunciou em Cherburgo. A linguagem das folhas allemãs é a este respeito frisante, e mostra clara e positivamente o receio de que se acha possuido o imperio em face do grande poderio da republica. A França, responderiam porém as folhas de Paris, não pretende a desforra nem sequer pensa em tal. As chagas que lhe foram abertas pelo segundo imperio saberá cural-as com uma politica sabia, prudente e liberal.