Lisboa
Não ha povo mais costumado de contentar que o portuguez! Não ha governo que o satisfaça por mais que já canse e por mais reformas que opere; o povo continua sempre com a mesma exclamação: «queremos reformas; façam-se reformas!» Oh senhores! Mais obras e menos palavras! Pois então quereis um governo mais reformador do que esse que ahi tendes? Não reformou elle as administrações dos differentes concelhos? Reformou; verdade seja que essa reforma só consistiu em anichar os confrades do seu conventiculo, nomeando-os governadores civis, administradores, secretarios, amanuenses e até nos proprios regedores houve mutação! Não seria isto uma grande reforma? Certamente que sim! Verdade seja tambem que somente serviu para montar a carruagem eleitoral e collocar o desgraçado paiz mais proximo do abysmo que o submergirá dentro em pouco tempo, mas isso que importa? Venceram as eleições e levaram ao parlamento uma maioria quasi absoluta, já foi um producto vantajoso para o governo progressista! Reformaram os vencimentos aos operarios tirando-lhes 40 reis por dia! Então isto não foi mais que reforma? Foi até uma economia tão grande, que a divida fluctuante que o governo progressista encontrou em 10:000 e tantos contos tem-se elevado á resumida cifra de 17:000 e tantos contos! E nas repartições do estado não houve tambem aquellas grandes reformas que fizeram com que saissem dos cofres publicos mais algumas dezenas de contos de reis alem das que sabiam? Tudo isto são reformas de grande utilidade publica!—Está-se organisando um parlamento popular, para analysar os actos das camaras electiva e hereditaria, mas, segundo consta, o governo não está resolvido a deixar pôr em execução esta idéa. Porém já se acham aggregados para este fim muitos individuos de reconhecida intelligencia, e que estão resolvidos, no caso do governo fazer opposição, a convocarem um grande comicio para resolverem qual a attitude que devem tentar. —Está projectada uma grande recepção á esquadra franceza que deve aqui chegar no dia 24 do corrente. A recepção é feita pelo partido republicano portuguez, e constará de uma serenata no Tejo, para o que serão convidadas algumas bandas marciaes; no dia seguinte será offerecido um jantar á officialidade que compozer a esquadra. Do que houver darei parte. M. Bruno.