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Paris · Europa · França Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Telégrafo

As noticias que se receberam n’estes ultimos dias de Paris, quer pelo telegrapho quer pela imprensa, preoccuparam com justissima rasão o espirito publico sempre havido de factos de sensação. Na absoluta impossibilidade de transcrevermos o que ácerca da crise ministerial (crise que felizmente cessou por um modo muito honroso para a maioria republicana) vamos, como é nosso dever, consubstanciar todas as noticias que se relacionam com tão importante facto. Conforme se sabe no dia 9 do corrente teve logar a abertura das camaras, e n’esse dia foi lida no senado e na camara baixa a declaração ministerial, documento de muita importancia. O governo declara que a ultima mudança de ministerio não modificou a direcção dos negocios publicos: «Permanecemos fiéis á politica indicada pelos debates da camara; não julgamos possivel suspender a acção das leis por causa da resistencia que encontrava a sua applicação; as leis francezas que regem as congregações religiosas, não são leis de acaso nem de violencia, mas de cordura, de necessidade e de tradição: são garantias da sociedade civil e dos direitos do Estado, que o governo não póde deixar enfraquecer; são leis fundamentaes, que não melindram nem o dogma nem a consciencia; negal-as é negar o estado. Tal é, no entretanto, o espectaculo a que estamos assistindo. Impellidas por paixões mais politicas que religiosas, e com a collaboração dos partidos politicos, as congregações, um certo numero d’ellas, pelo menos, organizaram a rebellião contra as leis. Cumpria pois ao governo pôr termo a esta situação, que offendia a paz publica; assim foram dispersos os membros dos 261 estabelecimentos não auctorisados, e a dissolução estendeu-se a todas as congregações de homens desprovidos de titulo legal; não temos porem intenção de a applicar ás congregações de mulheres.» Recommendando portanto á camara e ao senado que discutam as leis concernentes ao ensino, á magistratura, ás reuniões e á imprensa. O governo, emquanto não forem votadas leis novas, applicará as leis antigas; pois não póde ficar desarmado diante da provocação e do appello á guerra civil. Entende que não é possivel votar actualmente uma lei geral das associações. Annuncia um projecto de lei que regule a promoção dos officiaes inferiores do exercito para completar a organisação militar do paiz. A publicação dos documentos diplomaticos mostrará as boas relações da França com as outras potencias, e o espirito pacifico de que todas estão animadas. Não duvida de que as vontades das potencias acabará por prevalecer na questão do Montenegro. Accrescenta que a manutenção das deliberações communs é a mais segura garantia para a Europa. «O nosso programma não se parece nada com esses manifestos ambiciosos e retumbantes com que os detractores da actual maioria encobrem a sua importancia; temos por nosso juiz a nação cordata, que ha dez annos aprecia a politica das realidades. E’ preciso um accordo completo entre a maioria e o gabinete. Não queremos que a maioria nos sofra ou nos tolere; pedimos-lhe que resolutamente ou nos dê ou nos recuse a sua cooperação.» Apoz a leitura da declaração ministerial teve logar na camara e no senado o mais completo charivari provocado pelos monarchicos e jesuitas. Um membro da direita teve o arrojo de chamar ao gabinete «governo de ratoneiros de gazua» (crocheteurs). Por isto se poderá avaliar da excitação dos espiritos. Para se fazer uma idéa do estado de excitação dos espiritos bastará dizer que a maioria parlamentar, não podendo supportar por mais tempo os insultos que lhe eram dirigidos pelo sr. Bandy d’Asson, deputado monarchico e clerical, teve de recorrer ao meio de o mandar prender; para esse fim entraram na sala quinze soldados que foram recebidos pelo sr. Bandy d’Asson ao socco e ao pontapé. Ao cabo da lucta o sr. Bandy d’Asson foi levado no meio da escolta, sendo ao fim de tres dias posto em liberdade, depois da camara lhe infligir energica censura. O ministerio continua, pois, na sua marcha politica para assegurar a paz e robustecer a republica.