Ourique. Chorava Heraclyto as miserias do mundo, emquanto o seu contemporaneo Damocryto se ria. Riam e choravam, a proposito, alguns centos de annos antes da era commun. Hoje, se vivessem, riam-se, tanto um como outro, da continuação das miserias que se vêem no seculo chamado das luzes. Ora diga-me, amigo redactor, se o chorão do Heraclyto resistiria á vista do que vou contar-lhe? Estamos em plena sessão da camara municipal do concelho de Ourique. Presentes quatro vogaes. Á porta da sala troca a perna, encostando-se á umbreira, o velho continuo, carcereiro da cadeia publica; bom velhote, e pae de um dos vereadores. Mais ninguem, á excepção do escrivão, existe alli, para presenciar a scena interessante que a pena traça. —Mas como sabe você o que lá se passou? me observará. —Ah! que ainda não vio o que lhe escreve: Cagliostro, o nigromante!... Leu-se a acta da sessão antecedente, que foi approvada e assignada? Leu-se tambem o expediente, que ficou para resolver para a sessão seguinte. Era preciso entrar na materia mais grave, que ha annos a esta parte traz á mesa das sessões. Não era a organisação das contas das capellas que a camara administra, nem tão pouco as do proprio municipio, atrasadas, aquellas, desde 1866, estas, desde 1870. Não era igualmente a decisão da celebre proposta do sabio Francisco Ricardo, que descompõe as administrações passadas, nos seguintes trechos, em paga do que os collegas accusados, que se acham presentes, dão a sua assignatura á propria descompostura, promettendo dar-lhe o voto para presidente! O sr. Francisco Ricardo, depois de dizer na tal proposta que o saldo proveniente dos rendimentos das capellas, desde 1866 a 1871, ainda existe na mão do ex-thesoureiro da camara, que ha dez annos foi exonerado, escreve o seguinte: «E visto que me occupo de tão ardua como espinhosa missão, não concluirei esta minha proposta sem saber desta illustre camara os motivos que teem occasionado a falta dos orçamentos da receita e despesa das capellas a que me refiro, nos annos economicos de 1868 a 1880—doze annos!» E’ elle que o diz; não somos nós! «Este estado anarchico, em que tem permanecido este estado de cousas, não póde deixar de ser censurado e sem duvida trazer de futuro desgostos aos vereadores que desde aquella epocha até ao presente teem gerido os negocios d’este municipio.» Ora se elle o diz, como o não havia de dizer Democrito ao Zé Povinho?! «E por que o ludibrio, ainda que immerecido, affronta todavia as faces dos honestos vereadores a que me acabo de referir, em cujo numero por felicidade estou excluido... Ainda bem que o confessa: elle, o sabio, o Francisco Ricardo, está excluido do numero dos honestos!... ... é certo porém que para desapparecerem certas preoccupações e juizos temerarios que a respeito da administração das capellas a que tenho alludido se fazem, se tomem promptas e energicas providencias, afim de pôr termo, reparem bem que é elle que o diz, a abusos que para mim são estranhos, mas que com tudo são do dominio publico.» Ora aqui está um vereador a desacreditar os proprios collegas e a camara de que é membro. E se elle tudo desacredita, o que hão de fazer os que não teem interesses em conservar o decoro da municipalidade?! Dois vereadores accusados—Luiz d’Oliveira e José Jacintho—assignam esta monstruosidade, este embroglio, que só prima pela calumnia! Deem-lhe voto para presidente, meus senhores! E’ verdade que a este caso podiam estes responder: «Ó tu, que fungas! Quem te auctorisou a dar uma casa, pertencente da camara, para o official Espirito Santo residir?! Quem te auctorisou, a ti, meu guarda de cemiterio camarista, a commetter este abuso? Em vista da auctorisação que me foi dada pela camara municipal, mentira, de que faço parte, para proceder a trabalhos na fonte de S. Luiz, para abastecimento d’agua, mentira, mando ao sr. Jeronymo da Costa, na qualidade de thesoureiro da camara, faça entrega a F. da quantia, etc.» Não sabes que commetteste um abuso previsto pelo codigo penal? Não sabes que ao presidente é que cumpre passar mandados, quando as despezas estejam auctorisadas? Para que fallas, para que censuras os teus collegas das administrações passadas? Para que lhes pedes os votos para presidente? Tu, presidente—guarda de cemiterio! Tu, presidente! Quando, como simples vereador, tens embrulhado tudo, tens desacreditado tudo! Tu o unico culpado dos desastres que ultimamente tens feito soffrer a uma população que precisa de socego! D’uma camara que precisa de paz e de ordem; porque tu és a desharmonia e a desordem! Vae pentear macacos! Vae enterrar defuntos!... Mas... e a scena que eu prometti traçar? Fica para a primeira occasião. Cagliostro.
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