Reuniu
se no sabbado, a assembléa geral do partido constituinte em Lisboa. Teve primeiro a palavra o sr. José Dias Ferreira, que recriou rapidamente os factos que de todos são conhecidos; mostrou que se não queixou nem se queixaria do modo como se resolveu a crise, apesar de dever notar que fôra o partido constituinte quem principalmente defendera no parlamento e na imprensa as idéas, em nome das quaes se agitára a opinião publica, e muito antes da opinião publica se manifestar; que fôra esse partido que sempre no parlamento e na imprensa combatêra energicamente o tratado de Lourenço Marques, tratado que fôra negociado primeiro pelo partido regenerador, e o imposto de rendimento, obra na camara dos pares votado pelos sr. Fontes Pereira do Mello e pelos seus amigos políticos. Tendo-se agitado a opinião publica exactamente contra o imposto de rendimento e contra o tratado de Lourenço Marques, não podia de certo satisfazer a opinião publica uma solução que lhe não dava garantias de que fossem attendidas nesses pontos essenciaes as suas reclamações. Comtudo o partido constituinte não se molestára com isso, mas não poderia cooperar com o novo gabinete, por isso que elle se não prestára a emprehender as reformas políticas que o partido constituinte reputa essenciaes. Fallou largamente nas reformas financeiras, sociaes e políticas indispensáveis, referio-se com louvor aos dois membros do partido constituinte que tinham sido chamados a tomar parte no governo e que não tinham acceitado esse convite, e concluiu o seu discurso, que fôra interrompido a cada momento pelas manifestações enthusiásticas da assembléa. Seguiu-se o sr. Pinheiro Chagas que se congratulou por vêr que o partido constituinte continuava a resistir ás provações que resultavam da sua permanência longe do poder; fallou com sympathia do novo ministério, e notou comtudo que, apesar dos elementos de força que tinha, era um ministério fraco, por isso que se podia comparar a uma companhia de intrépidos atiradores, lançada em vedeta para occupar uma posição perigosa mas que tem de recolher ao corpo á primeira investida séria; observou que a situação era grave, e que em presença das agitações da opinião publica, da permanência da nossa detestável situação financeira, da declinação do exercito e do pouco desenvolvimento das colonias, não podiam os partidos recusar-se ás responsabilidades do poder, e deixar de concentrar nos gabinetes que formassem todas as suas forças vivas; que o partido constituinte não declinára o poder nem por caprichos nem por covardia, mas exactamente porque entendia que era necessária que se entrasse agora no poder com a coragem necessaria para encarar os grandes problemas que se debatem e para os resolver, que os membros do partido constituinte acceitariam no gabinete o papel de simples soldados, mas para queimar o seu cartuxo em defeza da patria e da liberdade e não para figurar n’uma parada inutil. O sr. Antonio Augusto de Aguiar desenvolveu as suas idéas sobre as reformas necessarias, e affirmou que, se, entrando no poder, visse que não poderia emprehendel-as, se retiraria immediatamente porque não tinha ambições de especie alguma, e porque havia de chegar um momento em que o paiz appallaria forçosamente para aquelles que mostrassem por todos os seus actos que só queriam servil-o e não servir-se d’elle. Foi enthusiasicamente applaadido. O sr. Miguel Pacheco tomou a palavra para se congratular com o partido pelo procedimento nobre e digno que tivera em presença da crise política e para propor um voto de louvor aos srs. Dias Ferreira, Antonio Augusto de Aguiar e Pinheiro Chagas e um voto de confiança ao chefe do partido para que continuasse a dirigir a política d’esse partido com o acerto com que até aqui o fizéra. A assembléa associou-se unanimemente á proposta do sr. Miguel Pacheco, applaadindo muito o orador. O sr. Antonio Maria de Carvalho desenvolveu brilhantemente as mesmas idéas, sustentou a necessidade de reformas políticas, mostrou os inconvenientes que provinham do modo por que se fazem as eleições em Portugal, e que dá em resultado estarem as maiorias parlamentares quasi sempre em désaccordo com a maioria do paiz que fingem representar. Foi coberto de applausos o discurso do sr. Antonio Maria de Carvalho. O sr. Patricio Alvares sustentou e mandou para a mesa a seguinte moção de ordem, assignada por elle, pelo sr. João de Sousa Araújo e pelo sr. Reis Torgal: «A assembléa geral do partido constituinte, applaudindo o procedimento do seu chefe e dos cavalheiros convidados para fazerem parte da situação que actualmente preside aos destinos do paiz, perante a solução da ultima crise ministerial, faz votos para que no futuro seja seguido tão distincto e honroso caminho. Theotonio Patricio Alvares. Luiz Gonzaga dos Reis Torgal. João de Sousa Araújo.» O sr. Dias Ferreira tomou de novo a palavra para agradecer em seu nome e em nome dos srs. Aguiar e Pinheiro Chagas as manifestações da assembléa, affirmando de novo a necessidade do partido constituinte manter e levantar bem alto o seu programma. Foi de novo enthusiásticamente applaudido pela assembléa. O sr. Alves de Sousa propoz e sustentou a idéa de ser dado por acclamação um voto de louvor ao sr. Vaz Preto Geraldês pelo modo como dirige os trabalhos da assembléa, e pela energia com que sustenta na camara dos pares as idéas do partido constituinte. A assembléa associou-se por acclamação á proposta do sr. Alves de Sousa, e o sr. Vaz Preto, depois de agradecer esta manifestação lisongeira, levantou a sessão, sendo perto de onze horas da noite.