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Artigo

Arruaças em Ourique

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Alentejo · Algarve · Lisboa · Ourique · África · Portugal Caminho de ferro · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

A arruaça adquiriu os fóros de legalidade! Nunca se vio! Já não ha respeito á lei, nem aos cidadãos pacificos, cuja liberdade é tolhida pelos anarchistas! A bebedeira, a musica destemperada, que não serve para cousa nenhuma util, e os pyrotechnicos estapafurdios, fizeram causa commum com os maus administradores do municipio e das confrarias dissolvidas; o d’ahi a berraria infrene, os gritos de viva a liberdade, viva a republica, como se a liberdade seja synonymo de licença desordenada! Que outra povoação festejasse o advento ao poder de uma nova facção política, podia ter qualquer desculpa; mas Ourique, despegado por todos os governos anteriores, e só pelo progressista considerado, é inexplicavel! Com effeito, o governo progressista apresentou ao parlamento, antes da sua queda, o projecto de lei para o acabamento do caminho de ferro de Alemtejo e Algarve, o qual ha de atravessar o concelho de Ourique, dando-lhe por consequencia, uma grande importancia moral e material; o governo progressista demittio o administrador do concelho um analphabeto, que ha trinta annos consentia os mais graves desperdicios da fazenda do povo; e substituiu este pobre homem por um administrador que não consentio uma malversação, e que pretendia remediar as que já estavam consumadas, por impedirem ellas o andamento regular da escripturação camararia, e para mais facilmente se adoptar um systema novo, que havia de ser o credito do concelho, e, por consequencia, dos seus administradores eleitos. E’ verdade que tudo isto foi por elles desconsiderado, desconsiderando muitas vezes quem lhes queria valer! Poderia o partido progressista fazer sentar no banco dos réus os delapidadores do dinheiro do povo; do presidente que fazia viagens a Lisboa á custa do municipio; do presidente que sonegava ao orçamento a importante receita de 630$000 reis; do vereador que gastavam a torto, e nunca a direito, os rendimentos do concelho; da camara, finalmente, que não tem escripturação alguma feita, ha dezenas de annos; da camara que administra umas capellas, cujo rendimento é enorme, mas do qual se não sabe a conta, ha mais de quinze annos! Será porque estas faltas apparecem já, descarnadas, perante o publico? são ellas a causa dos foguetes, das chocalhadas, da berraria, dos insultos, emfim?! Mas quem tem a culpa das vossas faltas, quem primeiro as propalou? Não foi o respeitavel ancião, o vosso secretario, que aspirava ao capitolio progressista; que a cada passo via um inimigo do administrador, ao qual pretendia defender, lagrimas de crocodillo, quando em plena sessão declarava, que os 630$000 reis não tinham entrado em orçamento... por lapso! então chorava aos pés do administrador... fallava-lhe nos filhos!... Mil vergonhas... mil desgraças, que o emagreciam, que quasi o endoideceram, a ponto de pretender fugir de Ourique... para o que pedia a exoneração de presidente!... E’ cousa pouca de crime.) É verdade que o secretario tambem chorava... e que lagrimas, meu Deus!... E preciso, sr. administrador, uma syndicancia, não direi ao cargo de policia, que perderia a cabeça se abrisse, em publico, os olhos d’este valle de lagrimas e de miseria... O povo conhece-me; o povo é meu amigo; o que eu lhe disser faz; o Almeidinha não tem importancia alguma... elle é que tem a responsabilidade de tudo; quando v. ex.ª quizer sahir tem-me ao seu lado. Não ha medo, respondia-se-lhe. — Bem sei; mas... Mas agora recebe a musica á porta, e anima os foguetes e as chocalhadas. Á porta das pessoas que tem mais limpas as solas das botas, do que limpa está a consciencia de todos os directores das aasuadas ouriquenses. Podemos proval-o. Mais tarde o faremos. Mas antes de concluirmos, pedimos uma syndicancia rigorosa aos serviços publicos de Ourique... Uma syndicancia rigorosa, não porque um tal acto atiraria com a gente que anima as aasuadas, para as Costas de Africa. Queriam a represália? Não leem a represália. Não nos tachem agora de injustos... nem tampouco covardes. G. P.