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As attenções continuam a convergir sobre a questão de Tunes e agora mais accentuadamente depois do rompimento das hostilidades. É difficil n’esta occasião a nossa tarefa; compendiar semanalmente os successos quando de momento a momento surgem novos acontecimentos e se realisam factos quasi inesperados torna-se um trabalho arduo pela necessidade de trazer os leitores ao facto das occorrencias mais importantes. Conforme os leitores sabem o rompimento das hostilidades teve logar na preterita semana. Os francezes dirigiram primeiramente os seus ataques sobre a ilha Tabarca que foi tomada. N’essa ilha forma-se a base de operações da columna que, desembarcada na costa dos krumires, tem de marchar do norte para o sul para fazer a sua junção com a que devia entrar pelo sul, pela bacia do Medjerdah. As tropas francezas que tem de operar no continente africano occupam na fronteira uma linha muito extensa, que não é inferior a 200 kilometros, desde o pequeno posto de La Calle na extrema esquerda até Tébessa na extrema direita. As operações começaram na extrema esquerda, pela tomada de Tabarca. O desembarque effectuou-se, segundo recentes telegrammas. A expedição dirigida a esta ilha compunha-se da fragata couraçada de primeira classe la Surveillante e das canhoneiras Chacal e Hyène. As tropas de desembarque comprehendem tres batalhões de infanteria, uma secção de artilheria de montanha, e uma de engenharia. O exercito francez tinha de escolher este ponto para entrar no territorio tunesino, porquanto o curso do Medjerdah e as grandes planicies que vão até Tunes são os unicos pontos que se prestam a operar sobre Beja, d’onde se póde tornear as montanhas occupadas pelos khroumirs, ou ameaçar Tunes ou Bizerta. O bey de Tunes protestou perante os embaixadores das grandes potencias, protestos que não produziram o effeito desejado, porquanto o bey julgava que pelo menos a Italia e a Allemanha enviariam os seus exercitos em seu auxilio, entrando as tropas francezas quasi sem disparar um tiro no territorio tunesino. A questão franceza que tem de ocupar de momento grandes attenções é agora a da politica da paz em Tunis, que desde o tempo de M. Jules Ferry envolve difficuldades. No Diario de Noticias lemos: «Foi exonerado o ministro dos estrangeiros...» e no jornal francez La Liberté um telegramma de Londres dizia esperar que o novo ministerio portuguez rectificará e executará o tratado de Lourenço Marques, affirmando que a Inglaterra mantem com seriedade a antiga alliança com Portugal e repellirá energicamente toda a imputação de um projecto tendente á acquisição, por compra, troca ou conquista, de tal ou tal parte das colonias portuguezas. A benevolencia e o apoio material da Inglaterra é que teem protegido a independencia de Portugal contra a rapacidade de seus inimigos externos.» Ha de engolil-o quem ficar em Lisboa, quer vá para Constantinopla. Entretanto, na Russia, as cousas são gravissimas e tudo nos demonstra que o imperio está sob um regimen de terror. Apparecem proclamações nihilistas em todas as salas; a imperatriz acha-se encerrada no seu quarto e o imperador vive aterrorizado. Segundo telegramma de S. Petersburgo, o czar presidiu a um conselho de ministros em que se discutiu uma proposta do general Loris-Melikoff que tinha por fim a convocação de um conselho composto de representantes eleitos, afim de discutir as questões de estado. Se o imperador persistir na politica tradicional dos Romanoff, a revolução não se fará esperar. São igualmente importantes as noticias recebidas de Berlim; domina ali a agitação do periodo eleitoral e a questão liberal em face do despotismo de Bismarck. A Gazeta Nacional dizia que o povo allemão está em via de perder novos impostos e direitos constitucionaes e que a colligação clerico-conservadora prepara a mais perigosa campanha contra a liberdade do mundo inteiro.