Acontecimentos na Europa
As noticias que encontramos nas folhas de Paris e relativas ás operações em Tunis demonstram cabalmente que a campanha não será de duração e que a submissão dos kroumirs será dentro em breve um facto consumado. Proseguindo, pois, na tarefa que encetámos quando começámos a fallar d’este assumpto, diremos que a columna Logerot, que entrou na Tunesia pelo valle do Medjerdá ao sul, deixando occupada a cidade de Kef, proseguiu na sua marcha para o norte com direcção a Beja. Para lá chegar por aquelle mesmo valle e pela linha ferrea, devia atravessar de novo o Oued-Mellegne e occupar Souk-el-Arba. As ultimas noticias dão conta d’ella ter chegado a este ultimo ponto. Ficou por isso senhora do caminho de ferro, o que lhe permitte uma marcha rapida sobre Beja. No norte a columna Delebecque tinha tido os seus movimentos retardados pelo mau tempo. Recomeçou, porem, já as suas operações. As suas tres brigadas occupavam, do norte para o sul, as seguintes posições na fronteira: a brigada Ritter, depois commandada pelo coronel Grever, estava no campo de Oum-Tehoni; a brigada Vincendon, no de El-Aioun; e a Galland no de Roumis-Souk. Julgou-se que a brigada Vincendon se tinha adeantado mais do que as outras, e que se suppunha ter por objectivo um numeroso ajuntamento de krumires, acampados a muita distancia da fronteira. Hoje sabemos que o seu fim foi, por um movimento audacioso, occupar Kef-Cheraga, ponto bastante elevado, onde tem nascente varios riachos que vão desaguar no principal rio do paiz dos krumires, e d’onde se dominam os principaes valles e desfiladeiros da região. As tropas marcharam durante doze horas, sempre com as mochillas ás costas e combatendo. Começaram a marcha pelo escuro da noite, seguiram-na sempre pelas cristas dos montes, por caminhos na apparencia intransitaveis, e desde o romper do dia começaram a encontrar acampamentos de krumires, que tiveram de desalojar a tiro. Foi admiravel o comportamento da tropa e o modo por que supportou a fadiga d’aquella difficil e longa marcha. Os francezes tiveram tres mortos e sete feridos e causaram grandes perdas aos inimigos. O general Vincendon, n’uma ordem do dia de 27, elogia muito o procedimento dos officiaes e dos soldados da brigada. Considera-se muito importante a occupação de Kef-Cheraga, julgando com ella vencido o principal obstaculo á entrada do paiz dos krumires. Agora poderão mais facilmente as outras duas brigadas da columna Delebecque operar a sua juncção com Vincendon, para todas juntas carregarem o inimigo, deixando seguras as communicações com Tabarka, e perseguirem-n’o na direcção do sul e da Beja, linhas em que encontrarão a columna Logerot. Ficarão assim os krumires completamente envolvidos, e sem nenhumas condições de resistencia. No sul Logerot tem seguras as suas communicações com a cidade de Kef e com a fronteira, por meio da brigada Brem. Segundo os recentes telegrammas, na provincia de Oran, ao sul de Argel, reinava alguma agitação, produzida pelas excitações de um marabout, especialmente na região de Greyville. Suspeita-se geralmente que a maior parte das noticias relativas á guerra santa são exaggeradas, e, segundo noticias particulares de Oran, as povoações não se mostram resolvidas a tomar parte na revolta dos krumires. Poucos encontros tem havido entre as forças francezas e as dos revoltosos, e os governadores da praça de Tunis teem ordem expressa do béy de não se opporem á marcha dos francezes. As noticias, não obstante serem favoraveis ás tropas francezas, e não offerecerem a importancia que ás primeiras impressões suscitaram, continuam porem a ser recebidas e lidas com interesse. Conforme os leitores sabem, a terminação da crise ministerial na Italia pelo voto de confiança concedido pela camara ao sr. Cairoli, desarmou completamente os pessimistas que julgaram ver na crise uma profunda divergencia entre a França e a Italia. É mais um facto que vem corroborar as nossas affirmativas de que a questão de Tunis não arrastará a Europa a uma conflagração geral. Apezar da guerra entre a França e os krumires, as folhas parisienses, seguindo a corrente da opinião publica, occupam-se ainda da lucta religiosa que ainda se apresenta importante, offerecendo muitas considerações. Eis uma noticia importante que encontramos n’uma folha ácerca dos jesuitas que tem sido expulsos do territorio francez por fomentarem a desordem no seio das familias e por se tornarem perigosos á sustentação da ordem publica. Até 31 de dezembro do preterito anno tinham sido expulsos 2:461 jezuitas; durante o primeiro trimestre do corrente anno foram expulsos 36 barnabitas, 406 capuchinhos, 4 camaldulenses, 176 carmelitas, 239 benedictinos, 80 bazilios, 18 bernardos, 27 conegos de Latrão, 75 cistercienses, 91 padres de S. Bertin, 28 padres regulares de S. Salvador, 12 padres da congregação de S. Thomaz, 45 padres dos Filhos de Maria, 153 agostinhos, 168 irmãos de S. João de Deus, 30 padres do refugio de S. José, 41 irmãos de S. Pedro ad Vincula, 53 padres missionarios, 240 oblatas, 68 padres da Assumpção, 170 da companhia de Maria, 20 de Santo Ireneu, 20 maristas, 20 de Nossa Senhora de Sião, 30 padres chamados de Santa Face, 51 da Immaculada Conceição, 25 religiosos de Santo Edênio, 1450 trappistas, 8 missionarios de S. Francisco de Sales, 126 redemptoristas, 294 dominicanos, 409 franciscanos, 4 padres minimos, 31 passionistas, 10 camellianos, 9 padres da doutrina christã, 14 padres somascos e 11 trinitarios, ao todo 7:164. A França vae assim ficando livre d’esses individuos que á sombra da religião do Crucificado apenas sonham em arrastar a sociedade á anarchia e ao cahos. Apesar desta nossa revista estar já muito extensa, não a desejamos terminar sem fallar um pouco ácerca da questão entre a Grécia e a Turquia. Depois de terem sido acceites pela Grécia as propostas da Turquia, modificadas pela conferencia de Constantinopla, parece por agora ter ficado suspensa a questão do Oriente. Contudo fica ainda de pé a questão de se o sultão da Turquia se conformava ou não com os accrescentamentos feitos pelas potencias no traçado proposto pelo seu governo; e fica sobretudo de pé outra questão mais grave, a da posse immediata e pacifica dos territorios cedidos, exigida pela Grécia ao acceitar o tratado. Com relação á primeira, parece que o sultão não terá remedio senão ceder ante a pressão das potencias; porem, emquanto á segunda, receia-se que origine novos contratempos. A este respeito lembra o que se passou com a praça de Dulcigno, que a conferencia de Berlim adjudicou ao Montenegro, e teme-se que a policia do gabinete ottomano suscite difficuldades que se não possam resolver sem empregar a força armada. Os turcophiles, discutindo ácerca da acceitação pela Grécia das novas fronteiras, sustentavam que esta nação não tem direito a queixar-se, e que, pelo contrario, deve estar reconhecida ás potencias, posto que, não tendo intervindo na ultima guerra com a Turquia, e não havendo feito outra cousa emquanto ella durou senão ameaçar com o rompimento de hostilidades, alcançara mais beneficios de que qualquer outra nação. Alguns telegrammas dizem que em Athenas tem continuado a apparecer proclamações revolucionarias e que é grande o descontentamento do povo para com as decisões assignadas pelo rei, mas que se espera que a revolução não se presenciará.