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Terminou a lucta entre a França e Tunes. Os krumires estão submettidos e o bey viu-se obrigado a assignar um tratado, que estabelece garantias de segurança para os interesses europeus no territorio da regencia e para a fronteira franceza da Algeria. A França republicana provou que não menospreza o seu papel no conceito das nações, e que não descura a segurança dos confins da sua opulenta colonia argelina nem a protecção aos interesses dos seus naturaes nos paizes estranhos. Demonstrou ainda que tem o seu exercito preparado para todas as contrariedades, e que os seus generaes e os seus soldados são os dignos successores dos que tão brilhantemente combateram nas suas anteriores campanhas da Africa. Conforme dissemos em a nossa ultima revista a França unicamente pretendeu castigar os rebeldes e esta missão, que lhe era honrosa, desempenhou-a com hombridade e com o apoio de todos os gabinetes. Assim era de esperar. O governo francez declarou no parlamento que não desejava a conquista e mui positivamente disse: «Queremos castigar os krumires e assegurar o futuro. O bey deve dar-nos um penhor duradouro. Não queremos o seu throno, nem o seu territorio, nem annexação, nem conquista; mas o bey deve deixar a França tomar sobre o seu territorio as precauções que elle é incapaz de tomar. Sómente a França tem direito de resolver a sua questão com o bey, usando da justiça, moderação e respeito, que são o melhor direito europeu, o que inspiram a sua politica.» Conforme era de esperar os conservadores colligados aos legitimistas, sempre esperançados nas perturbações da ordem publica, tentaram especular com esta importante e melindrosa questão que poderia originar um serio conflicto entre a França e a Turquia. A paz está porem assignada. O sr. Jules Ferry disse que o tratado assignado pelo bey, e que termina a expedição tunesina, auctorisa a França a occupar eventualmente os pontos que julgue necessarios para a manutenção da ordem e da segurança na fronteira e no littoral. A França garante ao bey a segurança da sua pessoa, dynastia e estado; garante a execução de todos os tratados actuaes entre o bey e as potencias, mas o bey não poderá d’ora em diante negociar qualquer convenção internacional, sem accordo prévio com a França, que protegerá os interesses tunesinos no estrangeiro, e regulará de accordo com o bey, o systema financeiro da regencia para melhorar todos os serviços publicos. Uma convenção ulterior fixará a quantia da contribuição de guerra que hão de pagar as tribus insubordinadas. O bey prohibirá a introducção pelo littoral, de armas e munições destinadas a Tunesia, porque essa introducção seria um perigo permanente para a Argelia. A França conseguiu, pois, estabelecer o protectorado sobre a regencia de Tunes, o que é summamente importante. A imprensa nestes ultimos dias occupou-se da nota dirigida pelo governo ottomano ás potencias na qual protestou contra a entrada das forças francezas no territorio da regencia de Tunes. A nota ottomana foi recebida com frieza e desprezo. As potencias, conforme dizemos julgaram legalissimo o procedimento da França na desafronta da sua honra e no castigo que está infligindo aos krumires. A Turquia julgou ver os exercitos das potencias da Europa irem em soccorro do bey mas as suas esperanças e com o desprezo dos governos em breve se desvaneceram. Já que estamos fallando ácerca dos assumptos da politica interna e externa da Turquia demoramo-nos um pouco sobre as resoluções tomadas na recente conferencia dos embaixadores que teve logar em Constantinopla. Muitas foram as versões que ácerca de tão importante assumpto correram na imprensa, mas hoje sabe-se que a conferencia impôz um novo sacrificio á Turquia desmembrando-lhe 8:600 kilometros quadrados para os entregar á Grecia. Fallemos agora dos successos em S. Petersburgo onde reina o panico e o terror. O seguinte facto demonstra cabalmente a situação e o terror que existe nas regiões officiaes. Aos quarenta dias depois da morte do czar devia, segundo é costume da Egreja grega, celebrar-se uma missa pelo eterno descanço de Alexandre II. Este costume é sempre religiosamente observado, e impõe mais aos parentes do fallecido o dever de irem orar junto da sepultura onde jaz. O czar é muito religioso e por isso não podia faltar; mas de Gatchine para S. Petersburgo veiu vestido como um simples burguez, e só um quarto de hora antes da cerimonia é que vestiu o uniforme. Em o que o salvou. Os nihilistas tinham por seu lado tomado todas as precauções; para ir do palacio imperial para a egreja de S. Pedro e S. Paulo, era necessario atravessar a ponte de Nicolau. Um homem ainda novo passeava, havia muito tempo, pela ponte; depois commetteu a imprudencia de perguntar a um gordoroy (policia) se o imperador passaria por alli, dizendo que tinha vindo da sua provincia expressamente para o ver. O gordoroy fez signal a uns agentes de policia secreta, e o sujeito foi preso depois de uma tenaz resistencia em que matou um dos policias com um tiro de revolver. Revistando-o, acharam-lhe um punhal envenenado e uma bomba do tamanho de uma maçã. Declarou chamar-se Ivanoff e que tinha sido encarregado a executar a sentença contra o czar pelo comité nihilista. O imperador prohibiu que se fallasse n’este assumpto e especialmente á imperatriz, cujo estado é muito grave. Refere o Times que ultimamente um moço nihilista, escolhido pela junta revolucionaria, apresentou-se a pedir uma audiencia do czar, a quem, segundo dizia, pretendia fazer communicação de maxima importancia. Depois de ser cuidadosamente revistado, foi conduzido á presença do soberano, a quem declarou que estava encarregado de expôr-lhe verbalmente as condições de paz offerecidas pelo seu partido, com receio de que conservassem o imperador na ignorancia das propostas formuladas no ultimo manifesto dos nihilistas. Depois de ter desempenhado a sua missão, foi encerrado, mas não foi possivel arrancar-lhe a minima declaração que pudesse servir para se verificar a sua identidade. A imprensa estrangeira é unanime em dizer que se o imperador não der uma constituição ao imperio a revolução que será tremenda não se fará esperar. Aqui dam-se outras noticias.