Acontecimentos na Europa
O acontecimento de maior vulto de que nos fallam as folhas d’além dos Pyrineus e que promoveu em toda a Europa um geral sentimento de reprovação foi a tentativa de assassinato na pessoa do presidente da republica dos Estados Unidos. O presidente Garfield foi victima não de manejos politicos mas da loucura d’um advogado em Chicago chamado Guiteau. Garfield recebeu dois tiros de espingarda e ás primeiras impressões julgou-se que teria succumbido no caminho para o palacio, mas os boletins posteriores alimentaram a esperança de que poderá escapar salvo se lhe sobrevier a hemorrhagia ou se os soffrimentos se lhe aggravarem. Os medicos, segundo as noticias que temos nos jornaes que estão sobre a banca do trabalho, ainda não pronunciaram as ultimas palavras. Em Paris a noticia causou a mais dolorosa impressão e todos os jornaes são unanimes em condemnar o facto e a pedir severa punição para o assassino se bem os medicos o considerem alienado. Fóra deste assumpto o mais importante da semana, vemos nas folhas parisienses que as desordens na provincia de Oran continuam e os francezes encontram dificuldades em suffocal-as e em evitar as devastações e os morticínios praticados pelos revoltosos. Uma correspondencia de Sidi-bel-Abbès descreve uma acção dada ultimamente n’um valle proximo a Geryville, na qual as forças francezas tiveram 75 mortos ou extraviados e 20 feridos, sem colher vantagem alguma sobre os inimigos. A opinião publica em Argel está muito preoccupada com estes acontecimentos. Fazem-se todos os esforços para haver ás mãos do chefe da agitação, o arabe Bon-Amona, que tem até agora illudido todas as diligencias da tropa. Os hespanhoes estabelecidos em Saida e suas visinhanças foram victimas de roubos e aggressões, sendo alguns mortos e outros feridos. Algumas centenas d’elles abandonaram o paiz e regressaram á peninsula, desembarcando em Carthagena e em Alicante, para onde foram transportados em dois vapores. Crê-se geralmente que o governo francez, para pôr termo á desordem, terá que enviar para a provincia de Oran reforços consideraveis e generaes experimentados nas guerras de Africa. A agitação promovida em Marselha contra os italianos de que largamente fallámos n’uma das nossas ultimas revistas é reproduzida contra os francezes em differentes cidades italianas e sabe-se hoje que obedecia a um vasto plano formulado pelos jesuitas no desejo e interesse de arrastarem a França á guerra com a Italia na qual o grito seria—A Roma! A Roma!—O plano não produziu o effeito desejado. Em todo o caso quem passar uma rapida vista pelas folhas do maior vulto não só da França mas do estrangeiro comprehenderá que o assumpto está ainda na tela da discussão, não recuando parte da imprensa que obedece aos principios conservadores, que são apoiados pelo ultramontanismo, em atacar a França. Assim, pois, o Golos, jornal de S. Petersburgo, fallando da ultima circular do ministerio dos negocios estrangeiros, mr. Bartholemy Saint-Hilaire, julga-a exaggeradamente optimista, e segundo a opinião do mesmo jornal, a França, desgostando os gabinetes de Londres e de Roma, vê-se irremediavelmente isolada na Europa. Ao mesmo tempo vemos que a Gazeta de Colonia falla novamente n’uma alliança italo-allemã, recordando á Italia que se ella tivesse acceitado essa alliança em tempo opportuno, de certo já tinha recuperado Nica e a Córsega. Na sua linguagem são manifestos o pesar que sente pelo passado e as esperanças que nutre pelo futuro. O mesmo jornal abrindo novo campo de difficuldades para a França diz que a Hespanha deve exigir do governo da republica o resgate dos colonos hespanhoes aprisionados por Bon-Amona. O Imparcial, de Madrid, n’um dos seus ultimos numeros formulava as mesmas reclamações e accusava os generaes francezes de ineptos, e impellia o governo hespanhol a pedir satisfação categorica e reparação pela ruina e captiveiro dos seus compatriotas. Conforme era natural o jornal legitimista e jesuita francez L’Union, enthusiasmandó ante as palavras do Imparcial, julgava vêr n’um rompimento de relações entre a França e a Hespanha. Uma outra folha o Figaro, apologista das vergonhas e das infamias do imperio e que não duvida fazer coro com os reaccionarios de todos os matizes para descrédito da França, escrevia: «Em vão se procuraria hoje na Europa um paiz com cujo appoio e sympathia possa contar a republica. Em troca, a orbita da desconfiança e do odio, em que Bismarck nos encerra, aperta-nos cada dia mais. Ainda hontem por um golpe do mestre nos apartava da Italia, e já hoje attrae a Hespanha sob a sua influencia contra nós.» Mas ainda aqui não param as torpezas dos reaccionarios que, volvendo as suas vistas para a questão de Tunes, que tem sido muito explorada por elles, dizem que a Turquia, de ha muito inimiga da França, não deixa tambem de por seu turno pensar em hostilisal-a. Em uma correspondencia dirigida de Constantinopla para o Journal de Genève encontravam-se as seguintes linhas: «Quer-se fazer d’esta provincia (a Regencia de Tripoli) um vasto campo, uma base de operações, um foco de propaganda panislamica, sendo ahi que se hade preparar a grande insurreição musulmana que deve deitar todos os frankos ao mar.» Ao mesmo tempo a Correspondencia politica, de Vienna, dizia que á partida do embaixador francez de Constantinopla as relações entre a França e a Turquia podiam considerar-se hostis. Ao lado porém de tudo isto vemos os reaccionarios no seu louco empenho em semeiarem a desordem no seio do povo, o que jamais conseguirão, exclamarem: «Quando se convencerá a França e com a França os demais paizes esbulhados de seus legitimos soberanos, que os governos filhos da revolução são todos os mesmos e obedecem todos a um mesmo fim, sem que haja amor patrio nem respeito pelas mais sagradas instituições?» Estas palavras definem perfeitamente a questão e corroboram o que acima avançámos, do que os acontecimentos em Marselha obedeceram unica e exclusivamente a manejos dos jesuitas. O telegrapho deu-nos ha dias noticia da campanha eleitoral na Hungria e o resultado posto que diminuto foi favoravel ao governo. São estes os assumptos mais importantes e dos quaes mais accentuadamente se occupa a imprensa.