Acontecimentos na Europa
A França celebrou por uma fórma admiravel e enthusiastica o dia 14 do corrente mez, anniversario gloriosissimo da tomada da Bastilha. As folhas recem-chegadas trazem-nos curiosissimos promenores da grandiosa festa. Paris mostrou no seu grande enthusiasmo e na boa ordem que presidiu ao festejo que sabe honrar a republica e repellir para longe os que pensam perturbar o socego e a paz em favor dos seus interesses, isto é, em favor dos interesses da monarchia e da reacção. Gloria á França! São sempre recebidas com muito interesse as noticias de S. Petersbourgo onde a aristocracia receia d’uma revolução que os nihilistas, o partido da jovem Rússia, estão preparando. Hesse Helfman ainda vive; as correspondencias de S. Petersbourgo para as folhas radicaes de Paris disseram ha dias que a pobre martyr havia succumbido aos tractos dos seus algozes na prisão e nós conforme era do nosso dever demos curso á noticia que a tomámos por verdadeira. Apparece porém agora um artigo no Golos que é nada menos que a noticia circumstanciada do estado em que um collaborador d’essa folha a encontrou na fortaleza de Pedro e Paulo em S. Petersbourgo. É o artigo: «Hesse Helfman aguarda que a sua libertação se realise proximamente e em condições de todo o ponto favoraveis. Habita uma cellula não muito estreita, com bastante luz, bem arejada e provida de quanto é necessario. Durante a conversação que tivemos, Hesse declarou que se achava perfeitamente. Interrogada sobre a questão de saber se, findo o processo, fora submettida a novas inquirições, respondeu negativamente, accrescentando que apenas recebera convite para pronunciar sobre a identidade de um individuo preso, posto que conhecesse o mesmo individuo. Segundo ella propria declarou, não foi objecto de tentativa alguma de constrangimento, assim n’este caso como em quaesquer outros. Hesse Helfman preoccupa-se sobretudo com seu filho. Manifestou desejo de que elle fosse confiado ao pae, e discutiu seguidamente com o seu advogado a conveniencia de uma petição do indulto dirigida ao czar.» Fallemos agora d’outra questão. A imprensa madrilena continua a mostrar-se muito preoccupada com as noticias do Times. A insurreição dos arabes na Tunesia, se por acaso são verdadeiras as ultimas noticias, vae augmentando de importancia. Parece estar confirmado que nos tumultos em Sfax o vice-consul francez foi accommettido pelos revoltosos e ficou com um braço partido, por haver sido espancado com um cacete. Os officiaes da canhoneira franceza, que haviam desembarcado para o proteger, foram perseguidos a tiro, e tiveram que fugir a nado para bordo do seu navio. Confirma-se a noticia de se terem refugiado a bordo dos navios surtos no porto todos os europeus. O inspector das linhas telegraphicas, que tinham saído de Mahdia para restabelecer os fios que haviam sido cortados, foi avisado por uns arabes, que encontrou no caminho, de que não devia seguir para deante, porque a sua vida corria risco, em vista das desordens de Sfax. Recolheu, por isso, novamente a Mahdia, onde os europeus começam tambem a receiar uma invasão dos arabes revoltados. O corpo de tropas francezas que estava estacionado em Manouba, proximo da cidade de Tunes, recebeu ordem de partir para o porto da Guletta, onde embarcará para Sfax, para alli operar de concerto com as tropas do bey. As operações contra os revoltosos vão ser energicas, e se ao não teem já sido castigados é tal facto devido ao muito calor nas paragens onde se estão dando taes acontecimentos que impossibilita as tropas francezas de manobrar com a energia que o caso requer. A troca de notas entre os gabinetes de Madrid e Paris não deu incidente algum pelo qual resultasse a quebra de relações entre essas duas potencias. Entre a Turquia e a França ha tambem cordialidade e as relações não indicam que possam aspirar. O corpo de tropas enviado pela Turquia para Tripoli tem por fim unicamente evitar que a revolução dos arabes possa tomar maior incremento. Nada vemos que possa perturbar a paz na Europa.