Acontecimentos na Europa. O resultado das eleições em França foi conforme era de esperar favoravel ao governo. A França dando de novo e por uma forma brillantissima a victoria á republica demonstrou cabal e positivamente que não está resolvida a curvar-se ante as demasias dos conservadores e dos clericaes. Nos centros do ultramontanismo lavra a maior confusão e as suas folhas não encobrem o desgosto produzido pela monumental derrota dos monarchicos de todos os matizes nas eleições que se realisaram no dia 21 do corrente. É espantosa, posto que esplendida, a maioria do governo na camara que prestes vae abrir as suas portas, e para a devida intelligencia dos nossos leitores vamos dar a seguinte curiosa noticia ácerca do movimento na representação nacional. A ultima camara compunha-se de 533 membros assim divididos: Republicanos — Esquerda republicana 163, União republicana 179, Centro esquerdo 35, Extrema esquerda 17; total 394. Bonapartistas 86. Orleanistas e legitimistas 53. Total 533. O numero de deputados da nova camara será de 555 pelas seguintes rasões: sete circulos de Paris e oito das provincias elegeram 2 deputados em vez do 1 — augmento 16; Argel dará 6 deputados em logar de 3 — augmento 3; a Martinica, a Guadalupe e a Reunião, cada uma 2 em logar de 1 — augmento 3; que juntos aos anteriores formarão um total de 555. Pelo telegrapho soubemos que foram eleitos 403 republicanos, 42 bonapartistas e 38 monarchicos. Ha 64 empates. O partido republicano, graças á sua admiravel disciplina, ganhou 18 circulos aos monarchicos, 38 aos bonapartistas e 12 dos que foram ultimamente creados. Se alguem duvidasse ainda da grande vitalidade do partido republicano francez bastaria por certo este facto, que é positivo, para desvanecer quaesquer illusões. A França, victima das torpezas do imperio, rompeu de vez com os élos que a prendiam a um passado que na sua historia lhe deixou centenares de paginas repletas de sangue e de ignominia. Nós como liberaes felicitamos com enthusiasmo a esplendida victoria do partido republicano francez. O resultado das eleições em França é perante a reacção e as potencias do Norte significativo, e digamos assim, não menos significativo é o resultado da lucta eleitoral em Hespanha. Ali, n’esse paiz victima da politica dos bourbons, vemos com prazer que vae renascendo a vida politica entre o povo. O governo, que na orbita monarchica é mais liberal que o ministerio canovista, obteve a victoria em 301 circulos; os conservadores ganharam em 46, os democratas em 37; foram eleitos 5 independentes que se presumem serão democratas. Não foi eleito nenhum candidato do partido carlista, o que é igualmente significativo se attendermos aos grandes esforços empregados pelo clero nas provincias vascas para que o partido podesse ser representado na futura camara. Tudo isto demonstra a grande corrente da civilisação e da democracia perante a qual nada podem os tyrannos e os trotas covardes. A Europa é nossa convicção que vae caminhando a passos agigantados para a grande e radical reforma politica que n’um futuro mais ou menos tardio se realisará. Embora os governos tentem por medidas oppressoras opporem-se á marcha das idéas e portanto dos acontecimentos, o facto é que os successos as mais das vezes imprevistos se succedem uns após outros com a velocidade do raio. A Inglaterra, a Allemanha, a Rússia, a Italia, a Austria, n’uma palavra todas as potencias estão actualmente luctando com a revolução que internamente se manifesta com factos estupendos. O nihilismo na Rússia faz estremecer o edificio da velha e nachronica politica dos Romanoff e dos Danicheffs, assim como o socialismo na Allemanha e na Austria espalha o terror nas côrtes de Guilherme e de Francisco José. A Inglaterra lucta com a questão agraria que de dia para dia adquire maior importancia e ao mesmo tempo estremece ante as ameaças dos fenians. Ainda ha pouco que n’um dos portos britannicos se descobriram diversas machinas enviadas pelos fenians e que eram destinadas a destruirem os navios de guerra; as machinas eram d’um trabalho delicadissimo e perfeitas, e a descoberta produziu o maior terror nos clubs da politica conservadora. Agora, segundo um telegramma da America do Norte, a junta irlandeza da dynamite de New-York acaba de publicar uma proclamação affirmando que pode destruir immediatamente todos os navios que tenham bandeira ingleza nos portos americanos, e ao mesmo tempo aconselha que ninguem envie cousa alguma por navios inglezes depois do dia 1 de setembro. Poderá talvez haver exaggero na proclamação da junta irlandeza, mas convem observar que os revolucionarios da Irlanda estão em perfeito contracto com os fenians com os quaes fazem agora causa commum. Todos estes acontecimentos que se precipitam por uma forma admiravel são importantissimos. Seguil-os-hemos em todas as suas phases. A Italia, que após á queda do poder temporal dos papas e á proclamação da sua unidade era pelos conservadores considerada como satisfeita nas suas aspirações liberaes, acaba de mostrar nas grandes manifestações populares realisadas nas principaes cidades contra as garantias concedidas ao papa que aspira á constituição da republica e á execução do grande principio da separação da igreja do estado. A Italia, victima do ultramontanismo, pretende sacudir para longe o foco da reacção que se acoita em Roma e para chegar á realidade d’esta aspiração não descansa um só momento nem tão pouco vacilla ante as idéas conservadoras manifestadas no seio da aristocracia. A Italia podemos afoitamente dizer que está sobre um vulcão. A revolução é alli apenas uma questão talvez de mezes.
Artigo
Acidentes e sinistrosArqueologia e patrimónioEstatísticasExércitoMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localPolítica e administracção do EstadoReligiãoTransportes e comunicaçõesAcidentes de trabalhoDebates políticosDescobertas e achadosDestruição de patrimónioEleiçõesNaufrágiosNavegacçãoQuedasReformasRestauro e conservacçãoSessões da câmaraTelégrafoTempestades