O sr. conselheiro Dias Ferreira
Na segunda feira diz o Noticioso chegou a esta villa, vindo do Mondariz, o sr. conselheiro José Dias Ferreira, illustre chefe do partido constituinte. Aguardavam a sua chegada, no Caca, desta praça, um numeroso concurso de individuos de diversas classes e posições, que alli lhe apresentaram os protestos da alta consideração e subido respeito que lhes merece o nobre estadista. A sua chegada foi annunciada pela philarmonica de Fontoura e por innumeros foguetes. O sr. dr. Antonio Bernardino de Menezes, distincto lente da Universidade, offereceu-lhe um opíparo jantar, no qual tomaram parte differentes cavalheiros, admiradores do seu grande talento, da sua vasta erudição e da sua incansável actividade, qualidades que o tornaram uma das individualidades culminantes do nosso mundo politico. O jantar, em tudo sumptuoso, condigno do genio altamente obsequiador do cavalheiro que o offereceu e da eminente posição d’aquelle, em honra de quem se realisou, correu alegre e animado. Fez uso da palavra o sr. conselheiro Dias Ferreira. S. ex.ª disse que se honrava do epitheto de homem activo e de trabalhador infatigavel, porque reputa dever indeclinavel de todo o homem que se preza, approveitar, desenvolvendo-as, as faculdades que Deus lhe deu para com ellas servir a sociedade. Que não póde comprehender que ninguem, e principalmente aquelle que possue talentos superiores, não seja politico, e permaneça, preso pela descrença, indifferente á marcha dos negocios publicos. Que são elevados e sagrados os interesses da nação, mais que os da familia e do individuo, e por isso áquelles deve de preferencia todo o cidadão votar a sua actividade. Citou um exemplo d’abnegação patriotica, realisado em França posteriormente ao golpe de 16 de maio, em que um negociante de Marselha desprezou, durante os tres dias anteriores ás eleições, todos os seus negocios, porque então cumpre-lhe, segundo elle dizia, não tratar de si, mas tratar da França. Que desde o momento que todos se compenetrassem d’este dever, os ministerios deixariam de limitar a sua actividade governativa a nomear pares, a fazer eleições, a transferir empregados, despachar amigos e crear impostos. Mas quando viam que da urna não sahiam os representantes do povo, mas os representantes do governo, que pelos seus delegados os faz eleger, a soberania passou da nação para o governo, porque os mandatarios devem cumprir as ordens dos seus constituintes, e n’este caso o constituinte não é o paiz, mas quem governa. Que esta verdade é comprovada pelas tres ultimas eleições, em que se demonstra que em logar dos gabinetes servirem a nação é esta que serve o gabinete e elle receia que, prosseguindo-se n’este caminho, ellas marquem o inicio da agonia do systema representativo. E os seus receios vão ainda mais longe. Vendo que os representantes do poder, na epocha anterior ás eleições, descem ao seio do povo não para consultar a sua vontade, para conhecer as suas necessidades, mas para captar-lhe as sympathias á custa de concessões de subsidios para egrejas e sinos, de despachos para apaniguados dos influentes eleitoraes, de uma estrada para cada freguezia, estabelecendo-se assim um desarrado systema de corrupção e contra a corrupção dos costumes não ha governo forte nem reformas efficazes. Quer por isso as reformas politicas. Quer uma camara alta filha da eleição, quer um conselho de estado eleito, parte pelo senado e parte pela camara popular, quer a camara dos deputados eleita pela nação e não pelos governos, que trazendo nas suas mãos as armas, de que hoje se servem, para violentar as consciencias dos eleitores independentes, transferindo para o poder judicial e dando estabilidade aos funccionarios publicos, para que elles sejam empregados da nação e não dos ministerios. E, posta assim a nação a governar e o rei a reinar, ficará o poder moderador sobranceiro ás questões politicas e ás luctas dos partidos, e não será arrastado da alta e serena esphera da sua inviolabilidade, para as ardentes e apaixonadas questões partidarias; quer o rei respeitado e considerado, porque julga indispensavel á nossa tranquillidade interior e á nossa segurança no exterior a conservação da monarchia constitucional, por isso que reputa um grande perigo para a nossa autonomia, as luctas frequentes e as grandes convulsões que agitam o paiz por occasião da eleição do presidente da republica, e que quando se dessem no paiz poderia pôr em grave risco a nossa liberdade e independencia. E embora reconheça que o governo republicano é um governo racional e logico em outros paizes, como a Suissa e os Estados Unidos, não póde entre nós subsistir sem nos acarretar aquelle grande perigo. É certo, porém, que as ideias em seu caminhar evolutivo não conhecem distancias, e que entre nós os principios republicanos vão adquirindo grande numero de proselytos, em virtude da propaganda que d’elles se está fazendo, principalmente nas duas cidades de Lisboa e Porto. A immobilidade é contra as leis naturaes e contra todas as leis. As sociedades, como os individuos, tem epochas de infancia e robustez, vão-se desenvolvendo e progredindo sempre, e, por isso, todas anceiam possuir hoje o maximo goso de liberdades. Não é, pois, de estranhar que as ideias republicanas tenham incremento entre nós. A corrente, no entretanto, póde engrossar e chegar a ponto que submerja as instituições na sua passagem. Que contra isso o remedio mais efficaz não é sahir-lhe ao encontro, mas acompanha-la. E isso se conseguirá com a promulgação das reformas politicas, na qual se vê o meio mais seguro da conservação da monarchia. E isto é o que entende, são estas as suas convicções e apregô-a bem alto, perante o povo e o rei, porque nada pretende nem do rei, nem do povo. Não declara isto para acarretar o descrédito de seus adversarios, porque não quer, de modo algum, alcançar o predominio do seu partido por meio do descrédito e da ruina dos partidos oppostos. Quer todos os partidos fortes e vigorosos, pugnando todos pelo bem commum. Não quer que a lucta entre elles seja um pugilato, em que se jogam os epitheto mais affrontosos, as injurias mais acerbas e os mais baixos doestos. Quer que seja discussão levantada e digna de principios e de ideias. Relativamente á questão financeira disse, que ella preoccupa hoje o paiz e que todos os governos promettem resolve-la; primeiro do que tudo, porque assim lisongeiam o povo, visto que a este o que mais dóe é o pagamento das contribuições; e que entende não poder ter uma solução proficua, emquanto se não tratar da questão politica, porque o escrivão de fazenda não poderá fazer matrizes emquanto estiver encarregado de fazer eleições. Por ultimo, demonstrou que dentro da monarchia podiamos progredir e desenvolvermo-nos e terminou brindando a S. M. el-rei, a S. M. a rainha e a toda a familia real. Fizeram depois varios brindes diversos cavalheiros. Por ultimo o sr. dr. Menezes brindou ao sr. conselheiro Dias Ferreira agradecendo-lhe a subida honra de acceitar aquelle jantar; declarou conformar-se com as doutrinas politicas expostas por s. ex.ª, fazendo votos para, em breve, poder realisa-las. O sr. Dias Ferreira agradeceu penhorado o convite de seu nobre amigo, amigo de ha muitos annos, sincero e verdadeiro, que ainda conserva as qualidades dos antigos portuguezes, d’aquelles que, na phrase de um dos nossos mais distinctos poetas, são d’antes quebrar que torcer. Que não se comprometia a realisar as reformas que apregoára e que constituiam o programma do seu partido. Compromettia-se, porém, a abandonar o poder logo que visse não poder realisa-las, e, como garantia do que dizia, apresentava o seu passado, pois, ainda não ha muito, o seu partido se recusou a tomar parte no governo, por isso que viu não poder realisar as reformas politicas. Que não tinha ambições do poder e que se nunca el-rei o chamar, nem por isso lhe dirigirá invectivas, nem consentirá que a imprensa do seu partido o faça. Terminou brindando o sr. dr. Menezes. O jantar concluiu no meio de grande enthusiasmo. Veio o Districto com dois artigos em resposta ás poucas linhas que lhe dirigimos no ultimo numero: no primeiro diz que é creança, que tem apenas meia duzia de dias, o que é uma valente peta, porque o Districto é velho; o que fez foi chrismar-se. Mudou de nome, mas não perdeu as manhas; logo ao quinto ou sexto numero, o sr. Garrido se afastou do tão boa companhia. E’ que o Jornal do povo continuava. E porque continua é que o mandámos reler o que em tempo lhe dissemos. E’ verdade que então encolheste e agora aconteceu-te o mesmo. Que fazêr? Lavrou um empiasamento! Leiam que é divertido: “Agora intimamol-o terminantemente, e positivamente para nos dizer quando e porquem essa obra foi orçada e approvada, sob pena de lhe dizer tambem, e terminantemente, que falta á verdade.” E o mundo a pôrfiar que o Franco é tolo. E o Franco a dizer que o mundo mente. Pois, sim, berra para ahi e vê se nos respondes ao que ha tempos te dissemos quando te chamavas Jornal do povo, se te damos cavaco. Não queremos que os digam tambem! E cansado já que fervo com esta a setima vez; e boas noites. E’ verdade: é de agora que sustentamos que a eleição camararia não deve ser politica?