Lisboa 4 de outubro de 1881
Cidadão redactor.—Começa esta minha correspondência, pedindo-lhe um favor: que é—o representar-me aos estimáveis leitores do Bejense, não como o telegrapho, mas d’uma maneira mais veloz no campo. E’ certo que os leitores devem estar admirados de não ter escripto nada; pois mais admirado estou eu... de se admirarem. Ha vinte e tantos dias, que deixei Lisboa e fui dar um passeio até á Ericeira. E’ uma villa muito bonita; mas embora tenha lá bastantes politicos como os srs. Mariano de Carvalho, Antonio Maria de Carvalho, Teixeira Queiroz, e muitos mais que me não occorrem agora os nomes; falla-se pouco em politica. Os leitores nada, ou quasi nada teem perdido em não terem lido correspondências de Lisboa, pois que se as tivessem lido, e encontrassem as proezas d’estes celebres, dos bens penitenciarias, teriam muitas vezes de pôr de parte a leitura porque lhes causaria indignação em extremo. O governo mais baixo, mais vil que tem havido desde 1834 para cá, é o que está á altura da gravidade das circumstancias. As perseguições são movidas de todas as formas. Os jornaes republicanos, uns são suspensos, outros são roubados. Extorquem-lhes dinheiros em fianças para os matar. O Seculo tem 23 querellas!!! Isto abaixo de tudo; os centros republicanos, são dissolvidos arbitrariamente. Lisboa é uma segunda S. Petersburgo; não se póde exprimir as opiniões republicanas, que se não seja provocado pelos representantes d’el-rei 1.º e d’el-rei 2.º [ilegível]. Arrebatam mau numero e ajunta, e agora querem com ruins defeitos da imprensa os esquecimentos. Ainda são actualmente os espiões do sitio. Os sicarios do informe e debocado tigre, são mais do que a praga de gafanhotos. Teem feito as maiores indignidades possiveis. Os cidadãos pacificos são provocados a todo o instante. Emfim tudo quanto é capaz de fazer um governo como este. Foi nomeado ministro de Portugal em Madrid, o Corvo das tratadas. Acautelai-vos Zé povinho com as tratadas. Sua ex.ª, o trahidor mór da patria, foi ter com seu amigo o sr. Morier. Por hoje nada mais. Lacerda e Mello.