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Artigo

Bibliographia—Mysterios do povo

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Lisboa · Paris · França · Portugal Exterior / internacional · Romano

Este romance, cujo plano é vasto e magistralmente executado, póde com propriedade chamar-se a epepea do povo. Eugenio Sue, á similhança de Moysés, sobre os pinaculos do Sinai, domina, n’uma posição alta da Historia, a massa que se lhe agita aos pés. Com a immensa differença que Moysés viu o povo hebreu, e Eugenio Sue vê o povo francez. Do alto d’esta posição, a que só uma bella intelligencia póde ascender, vê desenrolar-se diante de si a França, durante a serie das suas transformações, desde a conquista da Gallia pelos romanos e a invasão das tribus francas, até aos nossos dias, atravez da revolução de 1789 e da republica de 1848. É, pois, como se vê, a epepea do proletariado no decurso das idades. Eugenio Sue figura que o seu romance foi architectado sobre memorias domesticas, religiosamente conservadas no seio de uma familia bretã. Chega a revolução de 1848, e os manuscriptos preciosos estão em poder de um descendente d’essa familia, o sr. Lebronn, apostolo ardente da ideia republicana. É rico o sr. Lebronn, e torna-se importante a sua cooperação na obra da republica. Mas esta epepea grandiosa é manchada pelo sangue da guerra civil. Está-se nos terriveis dias de junho; Lebronn corre ás barricadas a supplicar aos insurgentes que depositem as armas. Mas quer o acaso que seja preso, n’esta occasião, como cumplice dos insurgentes, condemnado a trabalhos forçados e conduzido para Brest. Graças á protecção do general realista De Plonermel, a quem havia salvo a vida na refrega da rua Saint-Denis, é restituido á sua familia e á liberdade. Volta a Paris, e encontra os seus desanimados, profundamente descrentes na acção benefica da revolução sobre os destinos do povo. Lebronn, no meio d’esta desesperança da sua familia, representa o colosso da crença, a estatua da fé no futuro. Resolve-se então a communicar á sua familia os manuscriptos que até ahi havia occultado. Depois de os lerdes, diz elle, vereis como os da nossa classe teem avançado, da escravidão para a soberania popular atravez dos seculos. A esta hora, em que á custa de sacrificios enormes conquistámos a nossa emancipação social, não podeis duvidar do futuro. Fortalecei-vos, pois, gente de pouca fé. Grandioso quadro, na verdade. Lebronn é, por assim dizer, a encarnação da obra do povo, cheio de coragem para luctar e da fé no movimento progressivo da humanidade. Além do que, Lebronn, é um propheta, cujo vaticinio já se realisou. O povo deixou de ser escravo; foi admittido a intervir na gerencia dos negocios publicos; conquistou definitivamente o seu logar no banquete da civilisação. Nós applaudimos Lebronn e sem embargo combattemos a anarchia. Admiramos o que ha de grande, de imponente na lucta do povo pela existencia, e foi justamente este sentimento, que de nenhum modo se deixará arrastar até á convivencia de quaesquer desatinos sociaes, foi este sentimento, dizemos, que nos levou a ministrar ao publico portuguez uma nova edição dos Mysterios do Povo de Eugenio Sue, empreza verdadeira da imprensa serena, porque a Historia é eterna. Eia como em poucas palavras a empreza Horas Romanticas, da qual é proprietario o nosso bom amigo o sr. David Corazzi, consubstanciou nos prospectos que fez distribuir a importantissima obra de Eugenio Sue. Lisboa. Sebastião J. Bagam.