Almodovar 25 de outubro de 1881. Sr. redactor
Nos n.os 1084 a 1086 do seu jornal ficou provado até á saciedade que Antonio Mestre Botelho e sua mulher, moradores no povo da Semblana, deste concelho, alem de possuirem, só em propriedades, oito contos de reis, ainda se acham vigorosos, e que por consequencia foi um escandalo, mas monumental, a decisão da commissão districtal que isemptou seu filho do serviço militar com o fundamento na excepção do art.º 8.º n.º 2 da lei de 27 de julho de 1855. Quem poderia suppor que a depravação moral podesse attingir taes proporções?! ninguem por certo: E já que temos tratado do facto, passaremos agora a demonstrar os seus effeitos. Na freguezia de Nossa Senhora da Graça recensearam-se quatro mancebos, e coube á alludida freguezia, na subdivisão do respectivo contingente, um recruta; foram isomptos do serviço dois d’aquelles mancebos por lhes aproveitar a excepção do artigo 2.º da lei de quatro de junho de 1858, tirando afinal a sorte o Jacintho visto que a sua isempção é condicional, e o filho de Manoel Cavaco; o n.º dois tocou a este e o numero um áquelle, que devia ser proclamado recruta e preencher o contingente, mas como se acha isempto por obra e graça dos funccionarios de um governo á altura da gravidade das circumstancias, lá irá o pobre pagar pelo rico essa contribuição de sangue!!! Não é uma infelicidade o homem ser militar; referimo-nos mesmo áquelle que não tem uma educação litteraria, em cujo caso está o filho de Manoel Cavaco, mas este facto na actualidade representa uma desgraça para este pobre homem, que se acha sexagenario, tem sua mulher da mesma idade e cinco filhos menores, e é áquelle quem o coadjuvava com o producto do trabalho, na sustentação de sua numerosa familia, cujo futuro será cheio de inconvenientes, por isso que os lucros que pode ter do seu labór serão insufficientes para a sustentação de todos. O ex.mo sr. Pedro Victor, actual governador civil, deve mostrar que está á altura do cargo que o governo de sua magestade houve por bem confiar-lhe, o sr. Rozendo Bacellar Meyrelles tambem deve mostrar-se digno da posição que occupa e os srs. Almeida e Barbosa, militares, devem igualmente não desmentir as tradições do brio que em todas as epochas tem caracterisado a officialidade do exercito portuguez; sim nós esperamos que qualquer destes cavalheiros se justifique da accusação que aqui lhe temos feito, e torne effectiva a responsabilidade de semelhante escandalo a quem ella couber. Continuaremos. I.