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Berlim · Cuba · Madrid · Alemanha · Espanha · Europa · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Telégrafo

As noticias recebidas de Madrid são muito importantes. A subida de Sagasta ao poder deu um excellente resultado—a divisão dos campos politicos. Os partidos estão definidos, e para Hespanha, podemos assim dizer, deixou de existir a politica dubia e traiçoeira para apparecer a politica clara, positiva, definida, altamente indispensavel á liberdade e á democracia. Os que tinham acceitado a constituição de 1868, e apoz a queda de D. Amadeu a republica, como uma necessidade á sustentação da ordem publica, mas não conformes á satisfação das suas ambições nem tão pouco aos dictames de sua consciencia, não tiveram duvida em declarar, em pleno parlamento, a sua adhesão á monarchia, muito embora Sagasta manifestasse as suas idéas contrarias á constituição de 1868, e altamente favoraveis á de 1876; a estes pertencem Moret e outros vultos mais monarchicos que republicanos. Os que pelo contrario collocam acima de todas as conveniencias particulares e sociaes o seu amor e a sua inabalavel adhesão á liberdade, ao progresso, á republica, esses declararam a monarchia incompatível com a liberdade de que a Hespanha necessita e conservaram-se firmes aos gloriosos principios da revolução. A estes pertencem Zorrilla, Salmeron, Pi, Capdevilla e outros vultos não menos notaveis. Os campos politicos, repetimos, pois, estão divididos e o principio democratico, graças a este resultado, manifesta-se cada vez mais forte, e tanto que Emilio Castellar, não obstante as suas idéas manifestadas em 1870 estarem muito modificadas e de haver contribuido para o fuzilamento de mais de cincoenta cubanos na insurreição de Cuba, conforme declararam as folhas federaes, não poude deixar com grande parte dos ministeriaes de proferir um excellente discurso n’uma das ultimas sessões do parlamento dizendo que jamais abandonará a idéa republicana, mesmo em presença d’um governo tão progressista como o actual, porque lhe vedam isso a sua consciencia e a sua historia pessoal, e considera como um perigo para a monarchia em Hespanha o espectaculo da republica franceza cada vez mais forte e o da monarchia em Portugal ameaçada d’uma crise revolucionaria. A Hespanha não retrocede. Os que atraiçoaram a republica em Sagunto para levantarem a monarchia e sustental-a sobre as suas espadas indisciplinadas confessam hoje que a liberdade é indispensavel e que a politica canovista, profundamente conservadora e centralizadora, é prejudicialissima ao throno e favoravel ás idéas revolucionarias. Mas convem observar, os conservadores erram em proclamar a monarchia democratica assim como erraram em proclamar em Sagunto, contra a vontade expressa da nação, a monarchia conservadora. A monarchia, conforme as generosas idéas de Luiz Zorrilla, é incompatível com a democracia, e por isso vemos que Sagasta, no seu louco empenho em approximar o throno á liberdade, apenas conseguiu dividir os campos e deu mais vida, e maior força ao partido republicano. A Hespanha, é convicção nossa, tem que representar um gloriosissimo papel no futuro da peninsula. A patria do Pelayo e de Cid, deixará em breve de ser monarchica para ser republicana, e quando a republica for alli um facto, uma realidade, Portugal terá forçosamente de lhe seguir o exemplo proclamando a republica e contribuindo assim poderosamente para a realisação da grande idéa hoje partilhada por todos os filhos da democracia—a constituição dos Estados-Unidos da Europa. As noticias de Berlim são igualmente muito importantes. O resultado das eleições levou o desanimo ao seio do partido conservador, e hoje é opinião unanime em todo o imperio que Bismark não poderá fazer prevalecer a sua politica oppressora e só favoravel aos interesses do throno acima da vontade nacional. Um jornal affeiçoado á politica de Bismark, o Post, annuncia a pretendida tensão do chancellier, de se retirar da vida publica, em resultado das recentes eleições para o reichstag. Entre outras coisas, egualmente curiosas, diz aquella folha: “O chancellier do imperio declarou que está cançado de servir de alvo a todas as malevolencias, a todas as infamias, a todas as calumnias, a todas as suspeitas invejosas, que uma população de quarenta e cinco milhões de homens tem vomitado.” Um correspondente de Berlim diz, porém, que ninguem alli toma a serio a ameaça do chancellier. É sabido que o imperador não acceitaria a sua exoneração, e alguns symptomas indicam que o artigo do Post mira a um unico fim, ao maior incremento dos poderes de Bismark, que não estarão longe de chegar a uma dictadura pura e simples. Alguns suppõem que a ameaça foi um mero expediente eleitoral, para produzir effeito no escrutinio de desempate. Segundo se deduz de varios indicios fornecidos pela imprensa de Berlim, é provavel que Bismark começará por submetter ao reichstag apenas o orçamento; que depois deste votado será encerrada aquella assembléa, para ceder o logar á reunião das camaras prussianas; e que a estas apresentará o chancellier os seus projectos relativos á questão religiosa. Se chegar a poder entender-se com o centro ultramontano da camara, é possivel que venha tambem a pôr-se de accordo com o centro do reichstag. Onde isso encontrará grandes difficuldades, porque este centro está dividido em dois grupos, que se apresentam irreconciliaveis. O mais presumivel é que Bismark não consiga formar maioria pela colligação do centro com os conservadores, e que então chegue o momento de elle se abalançar a resoluções extremas. Entretanto as eleições de desempate que se vão effectuando continuam a ser desfavoraveis ao chancellier. Das primeiras vinte e cinco realisadas, apenas uma deu triumpho ao candidato conservador. Ha já oito socialistas eleitos, e espera-se que ainda mais alguns fiquem victoriosos. Estes resultados são muito significativos. Dado o mesmo caso que o chancellier venha a adoptar medidas externas e que por tanto aconselhe ao imperador a dissolução do parlamento o resultado ser-lhe-ha por certo ainda mais funesto. A sua politica está condemnada e a Allemanha jamais se curvará a suas loucas pretenções. As folhas inglezas voltam de novo a tratar da questão da abolição do juramento nas camaras, assumpto importante que preoccupa muito a attenção publica. As recentes eleições municipaes de Northampton, localidade que deu o mandato de deputado ao sr. Bradlaugh, foram, conforme nos participou o telegrapho, favoraveis aos conservadores. Em face d’este resultado tendem os conservadores ainda a oppôr-se á entrada do sr. Bradlaugh na camara, na esperança de que a urna, novamente consultada, o exclua. Mas o sr. Gladstone já annnunciou que o governo apresentará ao parlamento um bill, substituindo o juramento regulamentar e tradicional por uma simples declaração firmada sob a palavra do deputado. Diz o Standard que o governo inglez trata de propôr ás potencias navaes uma convenção, pela qual todas se obriguem a exercer uma acção commum e combinada, que assegure uma protecção mais efficaz aos brancos nos mares do sul e que ao mesmo tempo, obste aos maus tratos com que estes por ventura possam opprimir os indigenas. O cura Shesly e o deputado irlandez Healy, que haviam sido presos por virtude das disposições da lei de repressão, e que depois tinham sido soltos, partiram para os Estados Unidos com o fim de fazerem propaganda em favor da agitação irlandeza. Um telegramma de Nova York refere que ambos já pronunciaram ali discursos violentissimos contra os srs. Gladstone e Forster. As correspondencias de Dublin continuam a descrever a agitação dos espiritos cada vez mais crescente na Irlanda. Ao mesmo tempo as noticias de Nova York fallam mui accentuadamente dos trabalhos já preparados pelos fenians em favor da revolução e da proclamação da republica irlandeza. Estes successos são importantissimos e estão demonstrando pela fórma mais evidente que as idéas revolucionarias e portanto os principios republicanos vão creando adeptos e creando força ainda mesmo nos paizes mais dominados pela aristocracia. A proclamação da republica é apenas uma questão de tempo. As monarchias já condemnadas pela civilisação e pelo progresso teem que desapparecer para deixarem o campo livre ao governo do povo—á republica—unica fórma de governo que libertará os povos e os salvará do estado miseravel e cahotico a que os tem arrastado os governos conservadores.