Acontecimentos na Europa. As noticias recebidas de Madrid são muito importantes. O governo, obedecendo ao espirito liberal da nação, continua a proseguir no trilho reformador e progressivo sem receio algum da guerra que os ultramontanos e conservadores lhe estão promovendo. Entre os projectos de reformas liberaes que formam o programma do ministério Sagasta, figura a do restabelecimento do casamento civil, que esteve em vigor na Hespanha desde 1870 até á restauração bourbonica em 1875. Desde este ultimo anno até ao presente, o estado apenas tem reconhecido para os catholicos o casamento religioso, sendo contudo os conjuges obrigados á competente inscripção no registo civil. O ministério actual, não só está resolvido a tornar valido perante a lei, para todos os effeitos, o casamento civil dos catholicos, mas tambem a manter e a fazer respeitar os direitos do estado, não obstante as ameaças que faz a Egreja de interromper as suas relações com a Hespanha. Os bispos estão resolvidos a oppor-se no senado, com todas as suas forças, ao projecto do governo, segundo as instrucções recebidas do Vaticano. Os jornaes catholicos tambem annunciam uma campanha renhida contra as leis sobre o ensino. No senado foram discutidos e approvados os seguintes projectos que auctorisam o governo a effectuar a conversão das dividas do thesouro e dos titulos da 2 por cento amortisaveis, e tambem a estabelecer negociações com os portadores da divida interna e externa para se chegar a um accordo definitivo. No campo republicano a união é cada vez mais compacta. Os que seguem a politica do famoso athleta da democracia e honrado patriota o sr. Luiz Zorrilla recebem adhesões de todas as provincias condemnando ao mesmo tempo a politica do opportunismo. Este facto, que é altamente significativo, mostra que os republicanos hespanhoes, no sagrado cumprimento da sua missão, estão firmes e resolutos para o grande sacrificio de reivindicarem para a sua patria, pelo meio da revolução, as liberdades e as garantias que a monarchia levantada pelas espadas indisciplinadas lhe usurpou. A Inglaterra, no firme proposito em subjugar os povos que tem sujeitado ao partido de suas forças, está exercendo sobre o povo irlandez um atroz despotismo. As idéas revolucionarias vão tanto progredindo, e nos centros conservadores o receio de que a republica seja proclamada em Dublin augmenta de dia para dia. A situação da Irlanda, dizem algumas folhas, ameaça complicar-se; e sobretudo com os trabalhadores do campo, cuja sorte o bill agrario em nada melhora, renovam-se tambem greves e manifestações. Algumas folhas inglezas publicaram um manifesto feito por um certo numero de trabalhadores campestres da Irlanda, que se queixam de que os rendeiros se occupam exclusivamente dos seus interesses e desprezam os dos operarios que os auxiliam. O manifesto convida todos os trabalhadores a associarem-se, para fazerem valer as suas queixas, e termina pelas seguintes palavras: «Formemos uma associação poderosa para advogar os nossos direitos, e mostremos ao mundo que temos a firme vontade de os reivindicar.» A Home Rule League tambem parece ir tornar-se um serio motivo de perturbação. O seu papel, tendo sido até agora simplesmente politico, e não social, ha dias celebrou ella em Dublin um meeting em que foi resolvida a publicação de um manifesto. N’este documento declara-se que, durante a agitação agraria, a commissão executiva da associação tinha julgado do seu dever abster-se de todo o genero de propaganda; mas que agora parece ter chegado o momento em que a questão da independencia legislativa da Irlanda deve começar a ser proposta ao publico. A commissão executiva convida os membros da liga a constituirem associações locaes. A Inglaterra, que teve de curvar a cerviz ante o direito invocado brilhantemente pelos boers nas montanhas e planicies do Transvaal, e de reconhecer a independencia a esse valoroso povo, hade igualmente curvar a cerviz ante a vontade do povo irlandez, que espera poder conquistar a sua liberdade na defeza sacrosanta da republica. É, pois, significativo o que se está passando na Europa e de dia para dia mais se augmenta a todos os verdadeiros liberaes a convicção de que a Europa será no seu futuro puramente republicana. Os factos são evidentes. A verdade manifesta-se por uma fórma clarissima. Descrer do futuro será fechar os olhos á luz da verdade e da evidencia. Avançaremos mais: Chegará um dia, como muito bem disse Raspail, que será um grande crime que um cidadão diga a outro cidadão: tu não és republicano.
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