Acontecimentos na Europa
As folhas de Berlim escrevem mui accentuadamente ácerca do movimento politico iniciado por Bismark em favor do ultramontanismo, bem assim da agradavel impressão produzida no Vaticano pelas palavras proferidas pelo chanceller ao parlamento sobre a questão religiosa. É este um dos assumptos importantes de que temos a tratar e por este facto diremos que, segundo as correspondencias de Roma, o cardeal Jacobini telegraphou ao cardeal Hohenlohe para que manifestasse ao chanceller o quanto o sacro collegio espera da sua nova politica no bom caminho para um accordo definitivo. Conforme se vê, e o que não é para estranhar, o ultramontanismo, contando com o appoio de Bismark, julgou por momentos obter uma esplendida victoria e assegurar o modus vivendi entre a igreja e o estado. As ultimas noticias dizem porem que o accordo não é tão facil como se presume e que de dia para dia maior é a divisão que se observa entre os conservadores e os ultramontanos no parlamento allemão, prova irrecusavel das difficuldades com que o chanceller está luctando para combater a grande influencia do partido liberal progressista. Segundo o telegrapho nos disse ha dias, o partido ultramontano tomou uma posição adversa ás idéas de Bismark na questão da entrada da cidade de Hamburgo na liga das alfandegas allemãs. Por este motivo a Gazeta da Allemanha do Norte, que é orgão da politica e das opiniões de Bismark, agride violentamente, em successivos artigos, o chefe d’aquelle grupo parlamentar, a quem attribue instrucções anti-patrioticas. Pela sua parte, uma folha dos ultramontanos, protesta, com toda a vehemencia, contra o que se chama «a calumnia officiosa». Observa-se ainda que um elevado numero de deputados do centro ultramontano, dos que foram convidados para a ultima soirée parlamentar do chanceller, escusam-se á ultima hora depois de terem celebrado uma reunião em que resolveram assim proceder. O ataque violento da folha bismarkina, ao mesmo tempo que revoltou esse grupo politico, produziu grande pesar nos conservadores, que sentiram a esperança de ver a seu lado, constituindo maioria no reichstag, os ultramontanos, trazidos pela intenção que revelára o chanceller, de celebrar a paz com o Vaticano. Vemos, pois, que n’esta importantissima questão os factos vieram corroborar o que por vezes avançamos. A questão ventilada pelos conservadores, a sua união ao partido ultramontano, o accordo emfim com o Vaticano em detrimento ás leis de maio, era um ataque directo e violento ás liberdades da Allemanha. O chanceller pensou por momentos poder supplantar o partido liberal progressista, mas ao estado a que chegaram as cousas muito difficil lhe será poder sahir da situação critica que organisou e constituiu. Em todo o caso convém ainda observar que muito ha a esperar da finura com que o chanceller trata dos assumptos politicos mas duvidamos que possa destruir a grande influencia dos liberaes. Um outro assumpto—o resultado das eleições supplementares em seis circulos em França—esteve por alguns dias na tella da discussão entre varias folhas da imprensa politica. Os nossos leitores por certo não ignoram que excepto no 2.º circulo de Perigueux, onde foi eleito o sr. Chavoix, republicano, contra o sr. Lestourde Gonty, legitimista, a lucta foi sómente entre republicanos, de opiniões mais ou menos avançadas. No 10.º circulo de Paris foi eleito o sr. Lefèbre, republicano socialista; na de Corte (na Córsega) e no de Constantina (na Argélia) triumpharam os srs. Arène e Treille, opportunistas. Ficaram empatadas as eleições nos de Aix, em que foi o mais votado o candidato radical, o sr. Loidet, e 3.º de Lyon, em que a maior votação recaiu no sr. Humbert, republicano socialista. Como dissemos, apenas em Perigueux os legitimistas tiveram a coragem de apresentar candidato. Nos outros circulos não se atreveram a fazel-o, porque nada mais podiam esperar do que uma desastrada derrota. N’aquelle mesmo, que pertence ao departamento de Dordogne, onde os monarchicos tiveram por muito tempo um dos seus mais aguerridos baluartes, apesar de se empenharem na eleição em favor do candidato legitimista, os partidos bonapartistas e clerical, não conseguiram reunir mais de 2:798 votos, emquanto que foi de 7:938 o numero dos que obteve o candidato republicano. Estes factos são altamente significativos.