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Artigo

O baile na Ajuda

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Bragança · Áustria · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Romano

Ás 9 horas da noite abriram-se as portas do paço; o largo era illuminado pela luz electrica, o que produzia um bello effeito, porque parecia existir alli a imagem da vida, ao passo que além do largo tudo era escuro e feio, porque a noite esteve tempestuosa. Ás 2 horas e meia começaram a chegar os trens conduzindo os convidados, e tantos eram elles que houve quem esperasse uma hora para chegar ao atrio. Chegado alli o effeito era deslumbrante. Ao aspecto, ninguem deixava de prestar homenagem ao grandioso vulto do marquez do Pombal, ninguem deixava de admirar a grandeza d’aquellas escadarias immensamente largas, e além disso graciosamente tapetadas e circundadas de vasos romanos etruscos cheios de viçosas flores, tendo de espaço a espaço magnificas estatuas de marmore representando as allegorias da fabula. Finda a subida da magnifica escada, que se achava illuminada por magnificos candelabros e placas, entrava-se na primeira sala magnificamente mobilada, notando-se n’ella a armadura completa de guerreiro antigo e que serviu a sua magestade el-rei no baile de mascaras no anno passado; depois seguiam-se aquelles immensos salões, todos elles brilhantemente illuminados e decorados, pendendo dos tectos formosissimos lustres e das paredes peças de delicado gosto. Ás 10 horas e meia abriu-se a sala do throno; severo e rico era o aspecto desta sala, que indicava magestade e grandeza: ao fundo elevava-se o throno real forrado de damasco encarnado listrado de galões de finissimo ouro e de uma largura desmedida; no throno estavam quatro cadeiras de braços, douradas, e riquissimos espaldares e almofadas de damasco encarnado bordado a ouro. As paredes desta sala são forradas de damasco encarnado; das janellas pendem magnificas e ricas bambinellas de seda da mesma côr, das portas riquissimos reposteiros, tendo no centro o escudo das armas reaes bordado a ouro. Rica como é esta sala, abrilhantava-a e tornava-a de surprehendente effeito a luz immensa que n’ella se espargia e que a tornava tão clara que fazia inveja ao mais bello sol de junho: um magnifico lustre de crystal com 150 lumes, accrescendo a estes outros tantos espalhados pelas paredes da sala e collocados em placas e serpentinas de crystal. Abrio o baile sua magestade el-rei dançando com a esposa do embaixador d’Austria por ser a pessoa mais antiga na graduação diplomatica e sua magestade a rainha com el-rei D. Fernando; nas outras quadrilhas, como é costume, houve troca de pares dançando sua magestade el-rei com a esposa do sr. conde de Thomar etc. etc. e sua magestade a rainha com alguns dos membros do corpo diplomatico. Das 2 para as 3 horas abrio-se a sala da ceia, deslumbrante era o effeito que apresentava: circundavam um riquissimo bufete, havendo no topo uma mesa para a familia real; todo o serviço nesta mesa era feito em pratos de prata perfumada de ouro; todo o mais serviço era de prata. Em redor da sala levantavam-se magnificos aparadores, onde estavam collocados com a mais bem disposta symetria a rica baixella da casa, admirando-se a riqueza e gosto artistico. Na sala do baile tocava a orchestra composta dos musicos da camara, e na sala da ceia a charanga de lanceiros n.º 2. Na primeira mesa estiveram 200 senhoras entrando depois o resto dos convidados que eram perto de 1200 a 1300. Entre as differentes salas havia a admirar a dos retratos, onde se viam as efigies de todos os membros da casa de Bragança, sobresahindo entre estes os retratos de el-rei D. Pedro V, e da rainha D. Estephania, achando-se collocado entre elles o retrato da rainha D. Maria II. Quando findou a ceia sua magestade concedeu a honra, aos individuos que assim o desejassem, de visitarem os novos aposentos, de que já fallei n’uma correspondencia: a sala que prendia mais a attenção era uma toda forrada de alabastro do Egypto, tendo-se aproveitado para esse effeito duas magnificas pedras que o vice-rei do Egypto enviou a el-rei D. Pedro V. Esta sala tem no centro um pequeno lago que lhe dá um aspecto oriental. Seriam 4 horas quando acabou o baile e houve quem chegasse a casa ás 7 horas da manhã. Ia-me esquecendo dizer o toilette com que sua magestade a rainha se apresentou, falta esta que as leitoras do Bejense não me perdoariam. Sua magestade a rainha apresentou-se com um toilette branco, guarnecido de rendas fechando estas em apanhados ou pequenos laços presos com pequenas pedras preciosas; o toucado era tambem branco e de extrema simplicidade artistica, mas riquissimo pelas brilhantes pedras que o cercavam, sobresahindo entre ellas um magnifico diamante avaliado em 30 contos e que formava um dos fechos d’uma caixa de tabaco de que usava el-rei D. João VI. Suas magestades el-rei D. Luiz e D. Fernando vestiam os uniformes de generaes, e sua alteza o sr. infante D. Augusto o de major de lanceiros n.º 2. P.