Mãe desnaturada
Na Amareleja, concelho de Moura, neste districto, vivia amancebado um homem e uma mulher, tendo esta em sua companhia uma filha de dezoito annos a quem aborrecia muito. No ultimo dia do mez findo sahiu o homem para Moura e ficaram em casa a mãe e a filha. A mãe, horrorisa dizel-o, agarrou n’uma foice e degolou a filha! Não contente o monstro com tirar a vida áquella a quem dera á luz, fez uma grande fogueira de palha, atirou-lhe para dentro o cadaver e poz-se a revolvel-o com uma forquilha a fim de o reduzir a cinzas! Os visinhos, suspeitando que alguma coisa extraordinaria se passava n’aquella casa, amotinaram-se. O monstro, receando a indignação d’elles, abriu a porta, mostrando-se mui [ilegível], mas tendo occultado o cadaver da filha, todo mutilado, n’uma golphada de palha. O povo entrou de tropel na habitação e, descobrindo o crime, pretendeu assassinar a mãe desnaturada, o que conseguiria se a justiça não interviesse. O monstro, gravemente ferido, foi conduzido para Moura em cuja cadeia se acha.