Festa do Sacramento
Celebrou-se no triduo depois do Corpus Christi, com a maior pompa, na parochial egreja do Salvador, a festa do Santíssimo Sacramento. O templo todo vestido de sedas, dizia-nos pelo teu aspecto magestoso, que era ali a casa do Deus verdadeiro. Tudo era solemne, tudo dispunha a fervor religioso. A capella mór porém realçava, achava-se primorosa e imponentemente decorada; um magestoso pavilhão servia de docel ao Senhor Deus Sacramentado. O altar mór não estava inferiormente composto; com tudo n’elle sobresahiam uns grandes ramalhetes collocados em seis aguias douradas, emblema do Santo Evangelista, offerecidos com tão ingénua como sincera devoção pela sr.ª D. Augusta Cypriana Pires, uma das mestras do coro do convento da Conceição, desta cidade, que de propósito os fez para esta occasião e para a egreja onde abriu os olhos á fé. N’elles, a par da escolha e delicadeza das flores, se notavam o bem acabado d’ellas, sua perfeita imitação e a boa combinação das cores. Nos tres dias houve pela manhã missa vocal e instrumental e no sabbado de tarde vésperas. Em todos elles assistiram milhares de pessoas de todas as classes e as irmandades das freguezias nas suas bancadas. A orchestra era composta da philarmonica bejense e d’alguns músicos do regimento 17 d’infantaria. Os cantores eram da capital. A philarmonica artística tocou á porta da egreja e bem assim á dos irmãos durante a festa. Oraram o sr. padre Manoel Henriques de Menezes Feyo (na sexta feira e domingo pela manhã), o sr. dr. Aristides (na sexta feira de tarde e sabbado de manhã), e o sr. dr. Emygdio (no sabbado de tarde). As suas orações corresponderam ao que se esperava e todos os oradores souberam elevar-se á altura da sua missão evangelica. No sabbado de noite houve no campo d’Oliva um brilhante fogo de artificio durante o qual tocaram a banda do regimento n.º 17 e a philarmonica artística. No domingo depois da missa, foi conduzido do convento da Esperança, procissionalmente, pelos irmãos do Santíssimo até á cadeia, o jantar dos presos. Na frente do préstito ia tocando a philarmonica artística, seguia-se a cruz da irmandade e após ella 207 alcofas contendo umas, garrafas de vinho e licores, e outras, pão, sopa, carne cosida, assada e ensopada, peixe, hortalices, arroz, azeitonas, queijo, doce, fructas, tabaco para fumar etc. etc. As alcofas estavam primorosamente enfeitadas de flores. As dignidades das quatro irmandades, levando as insígnias, fechavam o préstito. Pelas seis horas da tarde sahio a procissão, que apesar da chuva que cahio, ia bella e grandiosa. Levava oito andores pela ordem seguinte: S. Sezinando, padroeiro da cidade, S. João Baptista em menino, S. Francisco, Santo Antonio, S. João Baptista, Senhor Resuscitado, S. João Evangelista e Nossa Senhora da Conceição, padroeira do reino; entre elles realçavam os andores do Baptista, do Evangelista e da Senhora da Conceição, já pela sua construcção pois que são de prata de precioso lavor com pedras finas encastoadas, já pelo magestoso da sua decoração, galanteio de flores etc. etc. A cada um dos andores ia um anjo, e ao pallio dois, todos elles brilhantemente vestidos e lançando flores. Após os andores e precedendo o pallio seguiam-se paramentados de pluviaes grande numero de padres. Uma guarda de honra do regimento de infantaria n.º 17, no maior aceio e precedida da sua excellente banda, fechava o préstito. As ruas do transito, segundo o costume, achavam-se cobertas de espadana, e as janellas ornadas de ricas colchas de damasco. O concurso de povo era immenso e a procissão teve de parar muitas vezes por não poder romper. Ao recolher a procissão, e depois de levados os andores para o convento, foi a irmandade do Salvador dar a posse á de S. João que é para o anno a quem compete a festividade. Desde o Salvador até S. João subiram ao ar immensas girandolas de foguetes, e depois de concluído o Te Deum subiram tantas que durante quasi meia hora estivemos sob uma chuva de fogo. Na segunda feira foi a irmandade de S. João em corporação e precedida da philarmonica artística, á cadeia desta cidade, onde distribuiu pelos presos uma avultadíssima esmola, e pelas famílias indigentes da freguezia 100 rações de carne, toucinho, arroz e pão. As duas communidades dos conventos da Esperança e Conceição são dignas do maior louvor, já pela maneira obsequiosa por que se prestaram a coadjuvar os festeiros promptificando-se a arranjar o jantar, já pela concessão e decoração dos andores e tudo mais quanto se carecia para o brilhantismo da festa.